segunda-feira, 4 de março de 2013

Quando meninos se tornam homens, ou: quando eu vejo Game of Thrones.


Well, I've been afraid of changin'

Cause I've built my life around you

But time makes is bolder even children get older

I'm getting older too

Oh, I'm getting older too

Fleetwood Mac | Landslide


Fazia muito tempo que não lia algo que me fazia ficar desesperado, desesperançado, descrente da vida e do mundo. Aí eu conheci Game of Thrones
Quando a Raila me passou a série, ela disse “acho que tu vai gostar”. E eu tenho medo quando ela fala isso. Porque ela sabe que “gostar”, quando se trata da minha pessoa, é um mergulho sem escafandro atrás de pérolas que devem estar em algum lugar. E, como o resultado é incerto, eu aproveito a viagem até ficar sem ar.
Assisti os dez episódios da primeira temporada. E, de repente, meu mundo virou de ponta cabeça. Não, os mocinhos não vencem no final. Como assim? Como assim não existe um final feliz?
Sangue saía dos meus ouvidos, depois desse mergulho. Ah, fiquei casmurro por semanas. Aí... Veio a segunda temporada, e eu chorei copiosamente quinze minutos esmurrando a parede incrédulo, no nono episódio. O que é isso que me afeta tanto? Por que, me responda, por que eu fico tão afetado por algo que sei que não é real – nem foi feito para ser?
Então, ganhei o primeiro volume da minha namorada, de dia dos namorados. E revivi a primeira temporada – sim, com todo o pathos que isso representa. E, pateticamente, comprei os cinco volumes, e estou agora lendo o quinto. Lendo cada página como o último bocado de um pudim de vó. E sabendo que o pior ainda está por vir: George R R Martin está vivo, e não terminou a história. Ele nos trará os Ventos de Inverno ano que vem (talvez...) e faltará um último volume (talvez).
Vida longa a ele, o que eu e milhares de leitores desejamos.
Mas, porque falar disso? Porque a vida é injusta e não aprendemos isso nos livros. Porque as pessoas são complexas para além de maniqueísmos. Porque nós, no cotidiano, mudamos de lado, também. Porque nós, no cotidiano, falhamos. Mas não estamos, nunca fomos, preparados para acreditar que isso ocorreria na fantasia, também.
E, como uma rameira que se despe lentamente à meia-luz, Martin nos leva a crer que -  amargo trago esse - nós somos menos do que pensávamos ser. Somos humanos e não há vanglória nisso. Passo a passo, página a página, personagem a personagem, vemos que, mudam os contextos, permanece o axioma. Não somos perfeitos e, se isso é bom, ninguém me contou direito.
Eu espero, sinceramente, que essa história acabe bem, e eu volte a acreditar em heróis. Mas, sinceramente? Eu duvido muito que isso volte a acontecer.
Existe um problema em envelhecer, que o Martin explora bem, em seu “Senhor dos Anéis para adultos”: você deixa de acreditar que tudo acaba inexoravelmente bem. 
E é aí que você passa a se esforçar.


No próximo texto, no próximo quatro, de abril, a terceira temporada já terá começado. E eu serei um menino na frente da tela com os olhinhos brilhando de excitação, e um homem mais envelhecido horas depois, pensando que a vida é boa, mas não é justa.
E vou me esforçar para que isso soe bem aos meus ouvidos, e a meu favor, também.