segunda-feira, 22 de abril de 2013

No dia em que Júlia nasceu...

o milagre que salva o mundo, a esfera dos negócios humanos, de sua ruína normal e natural é, em última análise, o fato do nascimento, no qual a faculdade de agir se radica ontologiamente. Em outras palavras, é o nascimento de novos seres humanos e o novo começo, a ação de que são capazes em virtude de terem nascido. Só o pleno exercício dessa capacidade pode conferir aos negócios humanos fé e esperança (...). Esta fé e esta esperança no mundo talvez nunca tenham sido expressas de modo tão sucinto e glorioso como nas breves palavras com as quais os Evangelhos anunciaram a "boa nova": "Nasceu uma criança entre nós". 
(Arendt, Hannah, in A Condição Humana)


No dia em que Júlia nasceu, homens barbados se digladiavam por quase nada. Nações ricas impunham seu domínio sobre nações pobres, ficando aquelas ainda mais ricas e estas ainda mais pobres. Ditadores botavam medo no Oriente e falsos democratas enojavam o Ocidente. No dia em que Júlia nasceu, liberdades individuais eram postas em xeque por pessoas que se colocavam acima do bem e do mal. Ter era visto como religião para muitos ao passo que ser era coisa de pouco valor.

No dia em que Júlia nasceu, pessoas morriam de inanição para que outras pudessem morrer de obesidade. No dia em Júlia nasceu, a televisão só passava telenovelas, mas muitos pensavam estar assistindo telejornais. No dia em que Júlia nasceu, se vendiam panfletos em bancas de jornal, mas muitos pensavam estar consumindo importantes periódicos.

No dia em que Júlia nasceu, rios eram poluídos, florestas eram destruídas e o ar ficava cada vez mais irrespirável nas grandes cidades. Animais eram traficados e o homem ia se trancando cada vez mais em seu próprio cativeiro.

No dia em que Júlia nasceu, pessoas atravessaram a rua para não ter que cumprimentar alguém que vinha pelo sentido oposto. No dia em que Júlia nasceu, muitas pessoas foram adicionadas, mas muito poucas foram abraçadas. Muitas ideias foram curtidas, mas muito poucas foram aplaudidas. No dia em que Júlia nasceu, a tolerância era vista como a maior das virtudes e o amor como utopia distante.

Mas alheia a tudo isso, apesar de tudo isso, resistindo a tudo isso, Júlia nasceu.

E com ela nasceu o Novo. Uma nova chance. Porque todo bebê que nasce carrega consigo um bocado de esperança...

***

Não se preocupe, pequena Júlia. Não quero colocar em seus frágeis ombros o peso de mudar o mundo. Mas quero que compreenda que a mudança começa a cada pequeno novo passo. E chegou a sua vez de iniciar mais uma nova caminhada...

Não se apequene, pequena Júlia. O mundo agora também é seu...