segunda-feira, 20 de maio de 2013

Meus 20 (ou 30, ou 40...) e poucos anos

De que serve mentir a idade se a tua cara já está tão cheia de cronologia?
(Millôr Fernandes)

Lendo um artigo recente da antropóloga Mirian Goldenberg, publicado na Folha de São Paulo com o título “Ridículas”, conheci mais alguns exemplos das brilhantes comparações que ela faz entre opiniões masculinas e femininas sobre determinado tema. No caso, como ambos os sexos lidam com o envelhecimento. Elas sempre mais preocupadas em como envelhecer bem, sem passar ridículo com um visual que não corresponda às expectativas sociais, e eles sempre mais relaxados, sem abrir mão do estilo que desenvolveram na juventude.

A maior preocupação feminina com a própria aparência é socialmente um hábito antigo. Herdamos da sociedade de corte, que contava com uma estratificação social bem menos diversificada. A plebe era extremamente simples: homens, mulheres e crianças trabalhando no cultivo da terra. A nobreza, mais segmentada, tinha homens que se dividiam entre herdeiros, guerreiros e clero. Às mulheres não havia as mesmas opções, já que o exército e a igreja estavam fora de questão.

Restava às cortesãs passar o dia cuidando de si. Daí os vestidos espalhafatosos, penteados artísticos, maquiagem, unhas, adornos, cremes e mais um milhão de itens que a maioria dos homens sequer saberia como usar. A moda, dinâmica, mudou muito, mas respeitando hábitos antigos e adaptando-se as necessidades. Seria impensável andar pelas cidades contemporâneas com vestidos com armação de arame ou passar horas seguidas se arrumando todos os dias.

Com o tempo os homens também passaram por mudanças. Infelizmente o contingente militar e clerical ainda não foi extinto, mas dentro das novas opções o machismo continuou sendo bem trabalhado para que os homens levem determinadas vantagens.

Não é que não deixamos de usar algo quando envelhecemos por falta de vaidade. O sentimento existe, nos preocupamos quando surgem os primeiros fios de cabelo branco, de barba então, nem se fale (eu que o diga), mas socialmente os cabelos grisalhos são muito mais aceitos nos homens, o desleixo com a forma física é mais motivo de brincadeiras do que críticas e a relação de homens mais velhos com mulheres mais novas é muito menos censurada que o inverso.

Que na vida em sociedade nossa medida seja influenciada pelo olhar do outro, é até aceitável, mas abrir mão de coisas que gostamos com base no possível julgamento por parte de quem muitas vezes nem conhecemos? Acredito que o ideal seria um pouco mais de personalidade, independente do gênero.

Mas isso implicaria em dizer que se a velhinha toda esticada por plásticas faz isso porque gosta, não por se preocupar com os outros, ela estaria certa. Aceitar que aquele senhor sem mais espaço para rugas no rosto, que pinta o cabelo e o bigode (cuja própria existência anacrônica contradiz a meta de se manter jovem) com o preto mais escuro, faz isso por opção, não por pressão. De fato, não estão errados, mas caímos em outro problema.

A busca incessante pela juventude eterna anda tão exacerbada que as pessoas se esquecem de viver a própria idade. Crianças cada vez mais cedo se esforçam para se comportarem como adolescentes, que por sua vez querem ser adultos. A partir de certa idade todos querem retornar a qualquer custo para quando eram balzaquianos, já vi gente roubando dez anos da própria idade, crente de que todos acreditavam. E os jovens?  Esses que estão na fase mais almejada costumam se preocupar mais em evitar a velhice do que em aprender a envelhecer.

De fato, podemos pensar que quanto mais velhos, mais dificuldades enfrentamos, não apenas por parte da estética, mas começamos a pagar o preço do tempo, nos tornamos mais dependentes, frágeis. Apesar disso, e sem alternativas viáveis, cada fase tem seus problemas e vantagens, que não podem deixar de ser vividas, tão pouco vividas fora de sua própria época.