sexta-feira, 14 de junho de 2013

O Direito de Passar Livre Pela Cidade




*A foto acima é de uma repressão policial contra manifestantes, em Istambul-Turquia, no dia 1 de junho, de 2013. O protesto começou na noite de segunda-feira após construtores cortarem árvores do Parque Gezi, uma das poucas áreas verdes da cidade. Os manifestantes são contra a construção de um shopping em formato de quartel otomano, que derrubaria 600 árvores. Com o tempo outras reivindicações foram se agregando as manifestações, que seguem até hoje. Foto: Bulent Kilic/AFP *

O Direito de Passar Livre Pela Cidade

Ah! A cidade....

Os burgos cheio de pessoas, ratos e peste negra.

A cidade como resultado do processo da revolução industrial. As vilas operárias. Os proletários e suas proles espremidos em espaços minúsculos.

As pequenas vilas em pequenos clarões em uma mata, próximas aos rios. Por elas passavam mercadores, mascates, bandeirantes....

As povoações com uma igreja no meio. Moças nas janelas.

Cidade que rima com modernidade. (Rima com liberdade?)

Máquinas.
Os amontoados populacionais.

O lugar das grandes experiências arquitetônicas.
O concreto criando muros, viadutos, pontes.

A cidade como o lugar das trocas. O lugar da diversidade. O lugar das grandes circulações monetárias, mas também da concentração de capital em poucos bolsos.

O lugar da CIVILIZAÇÃO. O lugar da música urbana, do Itamar Assumpção.

O caos. O trânsito. Barulho de britadeiras. As pessoas vivendo empilhadas e andando de elevador, escadas rolantes, trens subterrâneos....

As pessoas meio máquinas, acopladas a alguma estrutura tecnológica. Celulares, fones de ouvido,
carros. (Ainda somos humanos? Que espécie de homo sapiens? Alguém sabe?)
As luzes da cidade. O cheiro do asfalto molhado, quando chove. O verde, o amarelo, o vermelho colorindo as nossas peles na noite. Os helicópteros sobrevoando nossas cabeças.

Zona leste, zona norte, zona sul, zona oeste e outros tipos de zona, para todos os gostos.

Onde tantos migrantes chegam cheios de esperanças e sonhos em busca de leite e mel.

O lugar das contradições. Das desigualdades exacerbadas. Onde milionários e desempregados compartilham o mesmo trânsito às 18hrs.

Lugar onde a natureza foi devastada para a construção de mais prédios, avenidas, estádios e estacionamentos. Um rio foi transformado em esgoto.

O lugar das possibilidades impossíveis.
Dos encontros e desencontros. Das profundas solidões.

Shows, festivais, workshops, exposições, teatros, mostras de cinema, companhias de dança...

A cidade.
O lugar das discussões poderia ser o lugar do consenso? Ou o consenso significa calar a boca, abrir pra reclamar, fechar e saber em silêncio que você não é um dos vencedores. A ordem estabelecida. O poder vigente. As regras. Quem escolheu? Quem decidiu?

Poderia ser diferente. O coração bate resistente e ao mesmo tempo pressionado por uma angústia. Como acreditar que as coisas podem mudar? Que esse jogo de dominador e dominados um dia terá fim e surgirá novas polaridades? Quem está no poder quer manter o controle. A ordem e o progresso. Controlam a polícia. Com balas de borracha não há diálogo, nem negociação.

Poderiam todos usufruir do direito de ir, vir, ficar , morar por onde se queira na cidade?

O direito de passar livre pela cidade, de circular nela e conhecer seus cantos e moradores. O direito de ao circular poder se expressar. Dar significados a lugares, ruas, bares e outros pontos de encontro, e ter o direito de reconhecimento da apropriação desses espaços. Apropriação simbólica, cultural que muitas vezes possuem mais valor para aqueles que nela existem do que para o proprietário que especula.

O direito de ser consultado sobre as intervenções, as mudanças espaciais, assim como o de poder propor, sugerir, planejar, plantar uma horta.

Ser cidadão, morador da cidade, não devia ser simplesmente ter de arcar com suas obrigações de cidadão: trabalhando, pagando impostos, respeitando as regras de trânsito, aguardando que as pessoas saiam do vagão antes de você entrar.

Passar livre pela cidade, por toda ela. Poder ir e vir por milhares de motivos e vontades e não só necessidades. E que esse direito seja de todos e não só daqueles que possuem carro e dinheiro.

Passear em suas praças. Poder descansar debaixo de uma árvore, mesmo estando em uma grande e moderna cidade.

Quem sabe assim podemos resgatar tantos valores que se perderam ou que foram sacrificados para que a cidade pudesse existir. Valores que são mais relacionados com o rural, com o sertanejo: como a solidariedade, o sentimento de comunidade. Quem sabe então poder ser e conviver como seres menos individualistas e competitivos.

- Esse texto não tem fim. Terei que interrompe-lo, assim, abruptamente.-