sexta-feira, 12 de julho de 2013

A boneca da Nicarágua


O caminho da ida todos conhecem.O bebê que nasce e cresce,mas e o caminho de volta?
Tenho uma amiga psicóloga que diz ser verdade aquele mito de pais que `cristalizam´ os filhos até os cinco anos.De tanto observar,cuidar,vigiar para que nada aconteça a criança os pais ficam com essa marca no cérebro,depois não conseguem mais fazer a transição a vida adulta dos filhos,eles serão sempre aquelas crianças desprotegidas de cinco anos.

Mas do caminho de volta pouco se fala.Nas últimas semanas eu entrei nele.Do nada,sem aviso prévio,meu pai ficou confinado a uma cama.Eu digo meu pai,mas não reconheço ele ali.O meu pai era alto,grande,independente e saudável.Agora só sei que é meu pai porque a voz é a mesma,mas o corpo não.Frágil,pequeno,magro,delicado,uma sombra do que foi.Parece isso na cama,um desenho,uma sombra.

Esse caminho de volta eu não escutei ninguém falar.Os pais falam dos filhos pequenos que crescem,mas as pessoas não falam dos filhos que viram adultos e são obrigados a assistir os pais se desmanchando como se estivessem feitos de fios que ficaram velhos e vão se rompendo sozinhos.
Pra mim parece a pior coisa da natureza.Tenho um sobrinho e ver ele crescer é uma alegria enorme,mas esse outro lado da natureza eu não conhecia,ver alguém murchando,definhando como se fosse uma flor que chega ao seu fim.
Vi minhas avós passarem por isso,mas desde que eu nasci elas já eram velhinhas,não conheci elas no auge.Meu pai não,eu conheço desde que nasci,sempre foi forte.
Em uma situação assim o passado vira futuro e o presente vira passado.Tudo se mistura,tudo muda de maneira dolorosa.

Os pais lembram dos filhos pequenos quando carregavam eles,mas nós filhos também lembramos quando erámos carregados,e quando se é criança os adultos parecem gigantes,é essa imagem que fica na memória da maioria,eu lembro do meu pai como um homem grande e forte que me carregava,por isso reconhecer como está agora exige de mim muito mais do que puxar as lembranças,mas de segurar minha alma,minha vontade de gritar e chorar todos os dias por ver tanta fragilidade em uma só pessoa.

Ontem meu pai me contou uma história que eu já escutei mil vezes.Ele era jornalista e foi cobrir a guerra na Nicarágua.Quando voltou me viu no aeroporto,esperando por ele,e lembra de mim com cara de sono e um vestidinho jeans com umas flores vermelhas.Não eram flores,eram morangos que minha mãe bordou.
Também lembro bem desse dia,tinha alguma coisa no ar,minha mãe nervosa,todo mundo estranho e me tiraram da minha casa de noite,coisa rara de acontecer.Lembro quando meu pai chegou e me carregou,me deu um presente,uma bolsinha de palha,onde estava bordado:Para Iara da Nicarágua.
Só lembro dessa parte.Mas meu diz que eu olhei para ele frustrada e disse-Cadê a boneca?
Ele prometeu me trazer na próxima viagem.Disso eu lembro,eu adorava bonecas e meu pai tinha me prometido uma `boneca da Nicarágua ´.Eu tinha quase cinco anos,não sabia nem o que era um país,nem uma guerra e muito menos o que era Nicarágua,mas achava que deveria ser uma boneca incrível,porque o nome dela era bonito,`uma boneca da Nicarágua ´.

Nas últimas horas e no relógio que resolveu parar tenho pensado muito nisso.Na rapidez de tudo,na lentidão do nada.Pode ser um calvário de um mês,pode durar dez anos.Mas nenhum filho merece acompanhar.Imagens deveriam ser preservadas,amores conservados e não deveríamos jamais ver alguém que amamos sofrer tanto.
Eu me esforço todos os dias que passo ali para não gravar nada na minha memória.Não quero essas imagens,não reconheço quem está na cama,não foi esse pai que eu aprendi a amar.Se eu soubesse que pelo menos ele vai melhorar,a dor seria menor,mas sei que não,já fui avisada que a descida é um caminho sem volta,o tempo no corpo a gente não cura,a medicina não ajuda em nada.

O que me cerca eu me recuso a deixar na mente.Não sei o dia,nem a hora,nem a década,não tenho a menor idéia de quando meu pai fará sua transição,como filha o máximo que posso fazer é ficar ao lado.Mas já resolvi no coração que não vou lembrar dele assim,não vou ter na memória a imagem de um homem como ele morrendo lentamente em uma cama.

Quando ele voltou da Nicarágua e me trouxe a bolsinha de palha me prometeu trazer a boneca em outra viagem.Semanas depois disso ele foi chamado a Nicarágua novamente e lá fui eu para o aeroporto.Lembro bem quando ele me carregou no colo e disse que ia trazer minha boneca e eu fiquei feliz.
Ele caminhou para o portão de embarque,se virou,se despediu e sumiu no meio daquele monte de gente.Eu fiquei parada ali,com o coração cheio de alegria,porque quando ele voltasse eu ia ter a minha `boneca da Nicarágua ´.
Lembro até da roupa que ele usava esse dia.Agora tatuei essa imagem na alma.O dia que ele mudar de planeta,eu vou lembrar desse momento no aeroporto,vou ficar de novo no mesmo lugar,ali,parada,esperando ele voltar por mim.Porque eu sei que quando ele voltar por mim dessa vez ele vai trazer minha boneca.E eu vou esperar por isso,nem que leve mil anos.Quero ver meu pai de volta,quem eu conheci e finalmente ter minha `boneca da Nicarágua ´.