sábado, 20 de julho de 2013

As oito sagradas

Este é um post agendado. Optei por um tema secular, que infelizmente não vai mudar do dia que escrevo até hoje e fico na torcida para que nada que mereça um texto exclusivo aconteça nesses dias.

A recente paralisação das centrais sindicais, realizada dia 11 de julho, não chegou a ter a magnitude desejada por seus organizadores. Foi um vislumbre perto das mesmas ações organizadas na década de 80, em boa parte pelo partido que hoje está no poder. Mas na pauta estava a velha luta pela redução da jornada de trabalho.

A maioria dos trabalhadores brasileiros segue a jornada de oito horas diárias, que costumam ser sagradas, intocáveis. Essa carga foi uma vitória histórica. Em plena revolução industrial, quando funcionários esgotavam suas forças em jornadas de dezoito, por vezes vinte horas diárias, os trabalhadores se organizaram para que, com muita luta, o dia fosse dividido em três partes, sendo um terço dedicado ao descanso, um ao trabalho e um ao lazer.

Parecia um sonho. Quem mal tinha tempo para dormir ganhou tempo até para o lazer, antes coisa de rico. E seguimos com o logro dos operários da época pós-revolução industrial. Mas essa tripartição do dia continua justa?

A atual carga horária foi pensada em uma época em que as pessoas em geral estudavam muito menos do que hoje, já que boa parte da população exerceria funções básicas, que não demandavam grande especialização. As vilas industriais concentravam os empregados ao redor da indústria em que trabalhavam – em alguns lugares isso ainda é bem perceptível, como na região do Brás, em São Paulo – e o tempo gasto de casa ao trabalho era de poucos minutos.

Para quem trabalha não é muito difícil fazer a comparação com a realidade atual. Dormir oito horas por dia é um privilégio que muitos conseguem realizar, quando muito, nos fins de semana. Em grandes cidades é comum passar algumas horas no trânsito ou transporte coletivo para chegar ao trabalho, depois de completar a jornada é hora dos estudos, por vezes um bico para reforçar a renda. Algum imprevisto, problema a ser resolvido ou contratempos eventuais devem ser descontados de nossa cota de sono ou lazer (se é que ainda sobra algum tempinho para isso).

As oito horas de trabalho são completamente sagradas, até mesmo a hora de almoço é separada, fazendo com que muitos permaneçam nove horas diárias no local de trabalho, todo o resto deve ser encaixado no tempo que seria reservado ao descanso ou ao lazer – os estudos sequer tem um tempo “oficial” nessa divisão.

Voltando às grandes indústrias, onde a produção de manufaturas era dominante, alguém teve a brilhante ideia de emendar um feriado que caísse na terça-feira, trabalhando um pouco a mais nos outros dias para compensar a quantidade de manufaturas que deixassem de produzir na segunda-feira.

O curioso é que atualmente estendem essa reposição de horas para setores que não produzem bens materiais, ou seja, lojas permanecem abertas por mais tempo para compensar o dia que ficaram fechadas, escritórios abrem mais cedo, mesmo que isso não reflita em mais clientes atendidos. Já presenciei o absurdo de faxineiras serem obrigadas a compensar as horas de trabalho. Teriam que limpar mais para que o ambiente ficasse limpo por mais tempo?

O domínio do patrão sobre o empregado vai além do tempo, se estendendo também ao espaço. Apesar do trabalho também ter potencial para ser um ambiente de socialização – não fosse o ambiente predatório que muitos lugares insistem em cultivar – em boa parte dos cargos já não é necessário que o funcionário esteja presente fisicamente.

Muitas tarefas podem ser feitas por computador e enviadas online, sendo indiferente se o empregado está na sala ao lado ou deitado em uma rede em Trancoso. Mesmo assim a presença física continua obrigatória, fazendo com que muitos empregados se desloquem diariamente, superlotando vias e coletivos desnecessariamente. Não basta que o serviço seja cumprido, deve haver também a supervisão do chefe, o controle do horário, a relação de posse por parte daquele que comprou a força de trabalho e quer utilizá-la ao máximo.

Como disse no início, essa insanidade não deve mudar em pouco tempo. Infelizmente estamos mais suscetíveis àqueles que têm a coragem de defender a flexibilização das leis trabalhistas. Não basta o direito de usar as oito horas que compram de nosso dia, querem fazer isso com todo o rigor e com leis mais flexíveis (ao patrão).