sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Pra que a pressa?

Dia desses recebo um sms: "É assim que as pessoas vivem? É assim pro resto da vida?". Eram 10 horas da manhã de uma quarta-feira comum. A mensagem, referia-se à correria imposta na vida da metrópole.
É assim mesmo, triste, né? respondi. Vida paulistana que na demanda insere uma ansiedade, uma agitação, um pai na forca, uma sangria desatada. E sem perceber, é assim que vão vivendo, correndo, se perdendo.

Em São Paulo a gente corre pra não perder o ônibus, corre pra entrar no vagão, corre pra pegar a vaga primeiro, corre pra dar tempo de fazer a unha e ir ao banco na hora do almoço, corre na escada rolante (do shopping!), e come correndo, anda correndo, chega em casa e continua a correr: pra dar conta do jantar, das roupas pra passar, a louça pra lavar, e ainda arranja tempo pra olhar o Facebook mais uma vez antes de dormir, assistir o futebol e quem sabe um filme, ou o primeiro bloco do último jornal. Daí coloca o celular pra despertar e tudo começar novamente.

É impaciência pra esperar o farol fechar, o café ficar pronto, o casal de idosos passar a catraca, o telefonema que não é retornado, o email que não chega, seu chefe que se atrasa, seu amigo que esqueceu do bar e avisa pra esperar mais 40 minutinhos.

Pichada na parede de uma loja, numa das avenidas mais movimentadas do Butantã, eis: "Se o seu trabalho é uma merda, pra quê a pressa?". Sempre que leio, além da risada que me escapa, penso: taí uma verdade. Pra quê a pressa? Essa gente correndo todo dia é pra quê, por quê? Pra bater ponto no trabalho e não ser descontado do salário? E aí senta na mesa, aquela velha mesa com calendário e telefone, e começa a reclamar da vida.  Correndo pra assinar contratos, quem sabe. E sair satisfeito em busca de mais algum contato, um almoço de negócios em que olhos mal se cruzam, mas a caneta e o papel estão ali firmes e fortes para serem preenchidos. Correr pra não perder a hora da aula, entrar na sala e ficar papeando com a galera sem nem ao menos saber do que se trata a matéria.

Quando meu pai sofreu um AVC no meio da madrugada e eu, sem saber dirigir, tive que ligar para os bombeiros, depois ligar para o Samu, passar endereço, telefone, CEP E ponto de referência, E ainda esperá-los chegar, tive a consciência do que é um real motivo que exigia a pressa. Era questão de saúde e vida. Depois que o susto passou, eu que sou acelerada ao extremo, passei a reavaliar minhas correrias.

Não corro atras do ônibus se não houver uma reunião ou alguém me esperando. Cinco minutos de atraso não implicarão para que o restante do dia (e meu trabalho) se desenrolem bem. Saboreio o café até o último gole, durmo até o despertador tocar (e às vezes um pouco mais).

Correr mesmo, só pro que é necessário: a vida que chama lá fora com sol e céu azul, a amiga que espera com a cerveja na geladeira, o filme que vai começar, correr pra abraçar quem se ama, correr pra tomar banho quente num dia frio. O mundo não vai acabar amanhã, viver com pressa e sem sentido desgasta, além de tirar o tom suave que a vida pode (e deve!) ter.