segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Inventário sobre o amor


Ama-se de cara porque ainda não se conhece.
Ama-se para inventar motivos dando sentido a algo.
Ama-se para provar ao outro o que sempre sente.
Ama-se no ciúme para provar o cálculo desmedido do que sente.
Ama-se ou se procura amar no triste consolo de não ficar só.
Ama-se sem querer conhecer pessoalmente para não se decepcionar.
Ama-se na esperança de ter quando se lamenta chorando o que não tem.
Ama-se para se envolver e depois não mais ser amado e uma vez verdadeiro o amor continuar amando.
Ama-se pela fé para ter retornos.
Ama-se no luto pela luta de não ter amado mesmo como foi.
Ama-se na insatisfação para obter o que satisfaz.
Ama-se no silêncio de não poder dizer.
Ama-se tão somente pela vontade esquecendo a razão.
Ama-se a ponto de não se amar.
Ama-se o que tem em volta e nunca o que está dentro do outro.
Ama-se na base do esquecimento para não assumir paixões.
Ama-se se reprimindo para já tarde mudar depois.
Ama-se pelo ódio em que se encontra.
Ama-se dentro do abraço na carência de querer mais.
Ama-se escrever o que carrega em si ainda que imposições.
Ama-se. 

JOÃO GOMES