quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O roubo dos sonhos

Como você se sente quando é roubado? Claro, partindo-se do pressuposto de que hoje é tão comum ser assaltado que uma pessoa pode se habituar a isso. Então, novamente, como você se sente?

Um conhecido costumava dizer que em São Paulo existem três pontos turísticos principais: a enchente, o engarrafamento e o assalto. Com um pouco de sorte, era possível visitar todos os três ao mesmo tempo. Nossa ideia de camiseta “Estive em São Paulo e fui assaltado no engarrafamento da enchente” só não foi pra frente porque os ladrões levavam inclusive as camisetas.

A primeira impressão é de incredulidade. Não uma coisa dramática do tipo “isso não pode estar acontecendo comigo”. Não. É mais algo “não pode ser verdade que eu fui roubado por um sujeito de bicicleta”. A vida da gente é tão agitada que o ladrão nem teve tempo de parar pra me assaltar propriamente. Um desrespeito.

Depois disso, a esperança. Tentei correr atrás mas eu e meus quilos a mais não fomos páreo pra perseguição. Aceitação. Preciso mesmo voltar pra uma academia.

Aí vêm as preocupações. Será que ele vai telefonar pras pessoas que eu conheço e começar a fazer ameaças? Será que vai dizer que me sequestrou e pedir resgate? Cacete, meu pai foi multado ontem e agora vai ter que se preocupar com resgate. Coitado do velho. Putaquepariu, e as fotos? Meu celular tinha um monte de fotos da Maria Clara. E era só pra eu ver. Droga de ladrão que vai invadir nossa privacidade. Deus do céu, ele vai entrar no facebook e mudar meu status de relacionamento. Vai zonear minha caixa de e-mails e marcar como lidos tudo que eu ainda não abri. Vou ter que ver um por um, claro, pro caso de ter respondido algum. E as músicas que o shazam identificou pra mim? Anda não tive tempo de baixar todas. Maldito, maldito seja. Vai me dar a maior trabalheira resolver tudo.

O próximo estágio é a raiva. Droga, vou ter mesmo que voltar pra academia! Ah, e comprar outro celular. Não queria ter esse gasto agora, mas não vai ter jeito. Não vou tentar me enganar: não quero só um telefone. Faço questão de um foguete que caiba no meu bolso. Ou não, muito pelo contrário. Já tinha me interessado por um aparelho com 5 m², de repente essa é minha chance. Acho que entrei na barganha. Infelizmente minha operadora é durona e negocia melhor do que eu. Até consegui um telefone bacana, mas não sem concordar em pagar um terço do patrimônio do Eike Batista.

E acabei me convencendo (ou seria conformando) de que fiz um bom negócio. Porque o novo telefone é melhor do que o anterior, que já estava capengando um pouco. Logo, ser roubado por uma coisa boa. Forçando um pouco a barra, admito, mas ok. E aí percebo que participei de uma experiência de autoajuda. E isso, sim, me preocupa.