sábado, 12 de outubro de 2013

O silêncio do novo século


É engraçado pensar que nasci no século passado. Acho divertido, mas reconheço que isso aparece todos os dias da minha vida, eu tento, mas nem sempre consigo ser parte do novo século. Ainda tenho dificuldade de lidar com muitas coisas que são características fortes destes novos tempos, entre elas a individualidade quase doentia. Nunca se viu tanto isso, hoje as pessoas estão ligadas a si mesmas de um jeito que nunca estiveram e nada supera a artificial relação que a maioria têm com seus aparelhos.

Já escutei várias vezes que todos parecem ligados a máquinas como se o planeta fosse uma enorme unidade de terapia intensiva. Caso alguém resolvesse desligar tudo, o mundo iria colapsar em questão de minutos.
O outro parece cada vez mais distante, tanto que pensamos que não precisamos de ninguém para viver, ora para estar vivo basta estar online.

De vez em quando também achava isso, até que uma pessoa muito ligada a mim resolveu viajar por meses. Depois que voltou percebi que todos os meses que ele esteve longe de mim eu não dei mais risada, parei de achar graça em tudo. Até assistir um filme ficou sem sentido, sem cor. Nunca achei que precisasse de alguém para rir, mas preciso.
Só quando ele voltou percebi meu silêncio, então lembrei que com ele eu dou risada de tudo. Pensei que era bem resolvida e capaz de me divertir sozinha, até cheguei ao absurdo de acreditar que para rir era só achar o canal de humor certo no Youtube.

Mas ele me fez ver que não sou desse século, sou do passado, daquele que eu ligava para minhas amigas em suas casas e quando o pai ou a mãe atendiam eu tinha que dizer: Tia, posso falar com a Fulana? Às vezes não dava, porque ela estava estudando, jantando ou tomando banho. Hoje eu ligo no celular e a Fulana atende, nem que esteja no dentista, a resposta imediata de um século que já começou com cara de fim.

No século que nasci a gente cochichava durante as aulas e falava muito nos intervalos e dava risada, muita risada, mais risada do que esses vídeos na internet provocam.
Tem alguma coisa mórbida nesse silêncio que acompanha a vida online. Também caem gotas de solidão nessa conexão plástica. Alguém disse que isso é o futuro, a revolução da comunicação. Pra mim parece o fim. Não escutar minha risada é como estar morta, apesar das nossas tentativas é o outro que nos faz perceber que estamos vivos, porque estar online não quer dizer estar viva.
Fiquei meses longe de quem amava e a vida virtual não me provocou nenhuma risada, pelo contrário, meu silêncio foi longo, mas agora acabou. É só lembrar da pessoa que dou risada e sou feliz. Ainda carrego a simplicidade das emoções do século passado, quando para rir a gente precisava do outro.