quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Dia da consciência... branca?

Hoje é dia da consciência negra, data escolhida por ser dia da morte de Zumbi dos Palmares, símbolo da luta negra contra a escravidão no Brasil. Há festas em comemoração à data, há vitórias, conquistas, mas também luta e muito esforço pela frente.

O que também está presente todos os anos, desde que a data ganhou notoriedade, é a famosa e vergonhosa pergunta: por que não existe dia da consciência branca? A mesma falta de informação está presente na reivindicação do dia do orgulho hétero ou o dia do homem.

Nem todos cobram isso por má fé ou com segundas intenções. Muitas vezes é por falta de conhecimento mesmo. Assim como a consciência negra, o dia da mulher e do orgulho LGBT não surge como motivo para festas ou aquecimento do comércio, mas como símbolo de luta contra opressões e discriminação.

A princípio esses dias não envolveriam orgulho, por se tratar de um sentimento ligado a escolhas. Nos orgulhamos de determinada profissão, habilidade, estudo, pois escolhemos e nos esforçamos por isso, diferente de nascer em determinado país, com determinado gênero ou cor.

Fica implícito que o orgulho expresso em datas de luta – suavizadas como datas comemorativas – está na superação do preconceito. No caso da consciência negra, expressa a sobrevivência difícil depois de quase quatro séculos de escravidão institucionalizada, que segue influenciando nossa sociedade.

Em 2009 conheci uma senhora que estava indignada diante da impossibilidade de processar o então presidente Lula. No auge da crise econômica causada pela especulação imobiliária nos EUA, o ex-presidente, para indicar que a crise nasceu em um país rico, disse metaforicamente que a crise havia sido criada por gente loira, de olhos azuis.

A senhora, com os cabelos pintados de amarelo, estava indignada porque havia sido ofendida pelo presidente. Sem dúvida uma situação inusitada para quem, há várias gerações, está habituada a se referir a uma coisa errada como ‘serviço de preto’.

Pode ser que individualmente não tenhamos nenhuma responsabilidade pela escravidão ou o preconceito racial cotidiano. Tratamos todos com igualdade e não atribuímos erros ou acertos à cor da pele – não há nenhuma virtude nisso; é o mínimo que se espera de quem tem a pretensão de ser civilizado. Mas orgulho de ser branco?

Talvez devêssemos unificar as demandas e criar o dia do homem-branco-hétero, que tem dentro de si o orgulho de sobreviver sendo o milenar opressor. Sugiro até data: 21 de março, aniversário de Jair Bolsonaro, um dos que defenderiam a data com a mais boçal das competências.

Criando essa homenagem à tríplice opressora a data seria uma referência para aqueles que sobrevivem bravamente, lutando contra homossexuais que querem a regalia de não serem espancados na rua devido à orientação sexual, contra as mulheres que estão cada vez mais atrevidas na luta pela prisão de estupradores, contra os negros que chegam ao extremo de reivindicar o mesmo salário que os brancos quando exercem a mesma função.

Por trás de um (nem sempre) inocente dia da consciência branca existe a omissão de que esta consciência já não está branca. Há tempos vem manchada. Manchada com sangue de minorias, que nem sempre são numéricas. 

Lutar pelo dia da consciência branca alegando direitos iguais deixa implícita a luta pelo direito de falsos humoristas associarem pejorativamente os negros a macacos, como se brancos não viessem do mesmo ancestral em comum; direito de religiosos insistirem na parábola bíblica que colocaria africanos como filhos de Cam, portanto amaldiçoados, como se não fossemos todos amaldiçoados, segundo a mesma bíblia, como descendentes de Adão e Eva; direito de seguir dizendo que coisas erradas são ‘serviço de preto’ e nunca, jamais, tolerar a metáfora inversa – sob pena de processo.

Hoje é dia da consciência negra. Dia de luta. Dia propício para ampliarmos nossa consciência – negra, branca, rosa, colorida – e pensarmos nos preconceitos reais, antes de defender privilégios forjados.