domingo, 3 de novembro de 2013

Hoje eu atropelei um cachorro

Hoje eu atropelei um cachorro. Você sabe o quanto gosto de cachorros. Já estava escuro e eu dirigia na pista rápida. Pensei que era uma sacola grande e que seria ruim se enroscasse por baixo. No mesmo segundo que percebi o erro já senti a pressão do carro esmagando os ossos.

Pelo impacto e pelo som, passei por cima da caixa craniana ou torácica. Posso dizer sem medo de errar que foi a pior sensação que senti na vida. Um som áspero, seco, que grudou no assoalho do carro, subiu como um arrepio pelas minhas pernas, raspou  meu estômago e chegou até a boca. 

Tentei pensar que não foi minha culpa, não tinha como desviar, brecar ou socorrer, que já devia estar morto, mas aquele som impregnou em mim. Pensei em procurar um acostamento e vomitar. É só mais um cadáver de cachorro, Marcela. Um cadáver de um cão grande e branco, como a nossa cachorra. Não pude deixar de pensar nela. 

Pensei em todas as coisas que estávamos sonhando no dia que a compramos. Foi por impulso, loucura, mas estávamos felizes, procurando casa pra morar e aquela coisa toda, uma que coubesse ela, o seu, eu, você, minha rede e a sua mesa de sinuca.

Não certo casa, não deu certo a cachorra, não deu certo a gente, mas naquele dia eu fui feliz. E você também. Só me lembro de ter visto você feliz assim no dia que achamos que teríamos um bebê.  Mesmo eu pedindo que esperássemos o teste, você foi logo falando pra todo mundo. Mas deu negativo. Não deu certo nosso filho também.

No meio da estrada, no escuro, onde só se via o farol dos outros carros e caminhões, eu chorei, mas já não sei dizer se pelo cachorro ou por nós.