sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Trindade

são três golpes, ou a minha fraqueza. morrer?

O pedaço de metal nas mãos do homem negro reluz vagamente com o refletir duma claridade difusa que desponta da rara lâmpada oscilante na longa rua sombria.

deve respirar o veneno que paira no alto desta cidade imunda. Um gigante em que a mestiçagem não se conhecia. Dois metros? Estou seguro nesta distância? Vejo algo… uma faca...o vulto…

O homem negro surge do beco que mal comporta seu corpo monstruoso.

três golpes; ou morrer.

Apenas um pedaço de uma faca segura pela mão do homem negro.

essa merda de faca não perfura  a pata de um cachorro! Por que não vai roubar outro cara, seu porra? Quer grana? Meu celular? Relógio? Sapatos? Está com fome? Vai queimar mais uma pedra, Filho da Puta!? Roubar… Pedir. Peça!   Posso te fazer um favor. Não... prefere o inferno, negro?

Alguns travestis transitam pela calçada oposta. Conhecem o homem negro. A cidade é lar dos rejeitados. Param para ver o espetáculo. Quase certo que mais uma vez o homem negro terá sua noite ganha. Nem fome, nem drogas; somente a pureza da vingançanca pelos seus. Mais um trunfo para oferecer aos ancestrais.

a marginalidade quer reivindicar. Ele não fala, porra!  E eu sou o quê? Um escolhido que o acaso fez escolher essa imundície de lugar, talvez. Matar, morrer... Inevitável…

O homem negro, pé ante pé, move o corpo desproporcional em direção ao pequeno jovem amarelo.

três golpes!

Ligeiro, como quem transporta um tornado nas mãos vazias, o jovem oriental, preciso e cirúrgico, desvia-se do forte e pesado braço que investe a metade da faca. A lâmina faz o ar chiar o som de um assobio noturno; para, no vácuo de um silencioso mau agouro.  

três.
Punhos fechados. Mãos trancadas e afiadas como pontas de lança. Os braços postos na posição de um arqueiro. O jovem amarelo solta a primeira flecha que finca no plexo solar do gigante negro. Uma reação do homem é esboçada, a dor, inesperada,  perspassa o estômago e, como chumbo, atravessa toda camada de músculos e orgãos, desencadeia uma dor fantasmagórica de chibatadas, nas costas.

Negro idiota. Eu não queria...

O jovem amarelo observa a ferida que verte sangue rubro dos séculos de escravidão encravados no grande homem negro. O primeiro golpe abala o monstro. Ele resiste.
Culpa?
Nova investida: com a mão esquerda em forma de uma pequena espada, num rápido movimento circular, a pancada perfeita faz o pescoço da estátua negra rachar, num sonoro ruído de súplica. A criatura, no entanto, ainda guarda sua porção de força. O homem negro reage com fúria titânica e seu soco odioso atinge uma vitrine. Cacos estalam e voam perdidos.

precisa tudo isso? devo...
O tempo é mais lento para o forte e pesado gigante. O cérebro, sobrecarregado de ódio ancestral perde seu poder cognitivo e, suas pernas, seus braços e todo o restante parecem aprisionados em grossas correntes com cinzentas bolas de aço nas extremidades. O esboço de mais uma tentativa para vingar os seus ensaia nascer, mas é o natimorto que surge.

usar o terceiro? acabar com tudo? Tarde! Terminarei depressa.

A queda: O homem negro, surrado. Dois metros que colidem com a hábil rasteira do pequeno amarelo.

Três… e eu poderia evitar. Marginal idiota!

Rendido, sem a misericórdia daquele amarelo que apenas procura espaço para preservar sua vida. O instinto da sociedade dos que gozam da conduta de bons cidadãos. Caído, de costas, tenta falar, mas os grunhidos estranhos ninguém entende. Poderia ser algum pedido de desculpa por ter sido portador da vingança? Inútil. O punho serrado do jovem amarelo é erguido ao ar, como uma marreta pronta para quebrar uma barreira. Desce veloz! A fortaleza de uma robusta caixa toráxica é derrubada no movimento de uma decisão acertada. O músculo cardíaco não suporta o impacto. Colapso ensanguentado. O corpo gigante estremece um pouco, a vida suplicado retorno. Finalmente, o homem negro para. Param todos aqueles que até então, torciam por ele. Alguns choram, outros lamentam e se lembram da Trindade. Seu sangue estanca em obediência. A cidade que vai despertar não quer sujeira quando clarear.

       Ao lado do gigante morto, em pé, o jovem amarelo sente-se vítima do infortúnio. A voz de seu pensamento ecoa entre os seus. Nada irá mudar.

ele quis o inferno. Nada podemos fazer. Lamento.