sábado, 29 de março de 2014

bicicleta

jamais tive uma, era praticamente inacessível ao bolso da família. ao vivo e a cores vi uma pela primeira vez em 1987. era vermelha, desgastada, velha e com um pneu furado, não pergunte a marca pois na época sequer sabia o que diabos era isso.  achei jogada num quartinho de quinquilharias e  perdi a conta de quantas vezes perturbei minha mãe para encher o pneu toda bendita vez que fosse usar e de quantas vezes forcei as pernas para girar as rodas. se é difícil pedalar em asfalto com pneu murcho imagina numa estrada de terra, cheia de pedrinhas miúdas, era simplesmente uma aventura terrível.


exceto o dia que cai feio, esborrachei no chão, quando tive a brilhante e nefasta  ideia de descer uma ladeira de terra com agora dois pneus furados e freio desregulado não me arrependo uma vez sequer de movimentar as rodas da velha magrela vermelha,  ignorada pelo patrão e crianças ricas da fazenda que pouco se lixavam se a filha do caseiro e da faxineira usava escondida. 


mesmo jogada as traças era  motivo de brigas e surras do meu pai. acontecia muitas vezes, mas a culpa era toda minha, pois esquecia da hora ou não o via chegar em casa para levar chinelo, guardar sapato e levar toalha se minha mãe não pudesse e acabava sendo flagrada na marginalidade infantil. afinal dizem que comportamento se observa desde a infância não é? e sendo mulher tem que ficar de olho, colocar na linha, regrar as roupas desde pequena se não vira uma qualquer, uma vadia.


é  através do comportamento que vai aparecendo a índole ele dizia e o que é dos outros gente honesta não põe a mão, mesmo que seja velho e não esteja sendo usado e mesmo autorizado a usar. achava muito injusto as surras e sempre perguntava por quê daquilo se já tinham autorizado a pegar de vez em nunca, o problema era que os donos só apareciam lá nas férias e final de ano, então era muito tempo para esperar uma autorização, e afinal estava lá jogada e ninguém queria saber da bicicleta então qual o problema de as vezes ou quase todos os dias e por várias horas usá-la. 


pegar a maldita bicicleta sem autorização  era um dos motivos de grandes surras, para ele  era considerado um furto, desobediência, falta de caráter. eu achava que apenas esses eram motivos para levar uma surra. fiquei confusa e não entendi quando a falta de atenção por não enxergar uma lata que estava próximo da cancela que aos berros me pediu para buscar e entregar na sua mão  foi considerado um péssimo comportamento, falta de modos, falta de inteligência ou cegueira digno de uma das maiores surras com direito a mangueira de lavar curral, aquelas que têm controle na ponta, que são grossas, e a cada lapada no corpo subia um calombo deixando marcas nas pernas, costas ao ponto de deixar o corpo mole e quase desmaiar. 


sinceramente não me lembro de ter chorado, só de ter gritado várias vezes pedindo para parar e sentir tanta dor ao ponto de em segundos não sentir mais nada, também me lembro de não ir para escola vários dias, de tomar banho com sal grosso durante dias e de ver minha mãe chorando toda vez que me ajudava no banho e colocar a roupa. também lembro de ver meu pai chorando e pedindo perdão no dia seguinte dizendo que ele não queria fazer aquilo e que a culpa era minha por ter o deixado nervoso e não ter achado a lata.


ficou horrorizado? não entendi por quê se quando uma mulher é espancada dizem que ela mereceu, fez por onde apanhar. neste caso vale para crianças também não é? então eu devo ter merecido, ou pior deus quis assim, mas não o deus que conheço, acredito ele não é tão maldoso assim. e praticamente todas que são espancadas, violentadas e abusadas a culpa é inteiramente delas, justamente pelo fato de existirem nunca jamais é de quem agride, no caso de um adulto então isso é óbvio a culpa é toda da mulher. só posso concluir que se trata de um mundo de merda ou que a humanidade está no ápice da insanidade. 


não entendo no caso do oriente médio onde praticamente adolescentes, mulheres nada mostram do corpo e sofrem abusos, violências, estupros, como se explica isso? uma vez que o corpo está totalmente coberto. no caso de guerras onde soldados estupram mulheres, crianças e quem estiver na frente para sentenciar e eliminar um povo por ser quem é.  a culpa é de quem?


quando finalmente decidiram que toda quinquilharia do quarto deveria ser doada, entregue para alguém, para desocupar o lugar meu problema foi resolvido. uma pena que a bicicleta durou alguns dias, o pneu estava tão gasto e já tinha sido tão remendado que num dia estourou formando um buraco enorme que não tinha remendo e bomba que desse jeito.


até um tempo atrás relembrar algumas coisas da infância era doloroso demais, ao ponto de nunca querer tocar no assunto, esses dias finalmente percebi que não poderia eliminar e deixar apenas o que foi bom, por que de uma maneira ou de outra alguém sempre precisa saber que somos próximos seja na dor, na alegria, de uma forma ou de outra nos aproximamos e nos completamos. relembrar, gritar aos quatro cantos do mundo se preciso for, viva e forte o bastante para dizer que não é sua culpa se alguém te machuca por ser quem é.


o livro persépolis da escritora e "cartunista" marjane satrapi que considero inteligentíssima ao fazer uso do que é simples para explicar o que na teoria e prática são complicados,diz que: a revolução é que nem uma bicicleta, se as rodas não giram ela cai. 


às vezes a bicicleta está com o guidão zuado, o freio quebrado, o banco rasgado, o pneu furado, as rodas trincadas e a gente já não se arrisca mais. está cansada de tanta exposição, julgamentos e eteceteras. então, na tarde de sexta-feira a conversa com uma mulher que você respeita, admira e sente muito carinho te relembra quem você é, e sendo muito especial e verdadeira te alerta e te faz acordar para vida. daí  vem a saudade daquela certeza de achar que tudo pode ser diferente. então a gente coloca uma fézinha safada e alguma coragem ridícula, dá um jeitinho aqui acolá e faz ela funcionar, voltar a girar. 

daí percebo que a bicicleta pode estar de qualquer jeito, o que interessa mesmo é se tem energia nas pernas para movimentar as rodas e não permitir que ela caia. ainda tenho e não permito, não deixo e não quero que minhas rodas, pernas parem de se movimentar e a bicicleta caia, e isso é por mim e pela vida das mulheres.