domingo, 2 de março de 2014

Uma odisseia na bibilioteca


Ok, na verdade não foi exatamente uma odisseia. Mas eu já publiquei alguns textos no meu blog (paulopilha.wordpress.com/) contendo a palavra odisseia no título. Uma odisseia no Detran, com o Bad Religion, na prova de auto-escola, no laboratório e não sei mais aonde. 

De todas as bibliotecas que já frequentei, talvez essa do CCBB no Centro do Rio seja a mais silenciosa de todas. A melhor em termos de infra-estrutura e ao mesmo tempo a mais barulhenta é a da PUC. Diria que 95% das pessoas ficam em silêncio. O problema é que sempre tem um ou outro novato de biblioteca sem noção que circula entre as mesas conversando com o coleguinha como se o silêncio só valesse uma vez que a pessoa esteja na mesa sentada. Ah, têm também os habitués mal educados mesmo. Estão lá todos os dias, mas atendem a porcaria do celular dentro da biblioteca em vez de deixar pra atender do lado de fora. Alguns ainda tem a capacidade de iniciar e terminar a conversa dentro da biblioteca fazendo aquela voz mais baixa como se ninguém ouvisse. É óbvio que a voz sussurrada é pior. Pode até ser mais baixa, mas irrita mais. Devo confessar no entanto que algumas pessoas conseguem conversar na biblioteca apenas usando leitura labial. É incrível. Essas pessoas podem conversar por horas na mesa ao lado e você não vai ouvir absolutamente nada. 

Voltando ao CCBB. Era um sábado. Sim, um sábado. Silêncio sepulcral como sempre. Eu já estava exausto. Morrendo de vontade de ir pra casa quando me entra um palhaço na biblioteca. Ele falacom o bibliotecário da mesa central, faz algum barulhinho de buzina e entrega um papelzinho a ele que se assemelhava àqueles do biscoito da sorte. Pega uma Revista Veja e senta em uma das mesas com uma indumentária absolutamente bizarra e extravagante. Vejo vários estudantes se entreolhando até que um deles se levanta e se dirige à mesa do palhaço para pegar um papelote de biscoito da sorte. O palhaço deixou as papelotes bem evidentes numa espécie de tubo que ele ficava agitando de vez em quando para chamar a atenção dos estudantes. Aquela agitação de tubo não faria qualquer barulho em circunstâncias normais, mas numa biblioteca silenciosa dava pra ouvir perfeitamente. O palhaço não parava quieto. Estava irritado inicialmente com a sua presença. Agora estava gostando. Quando novamente eu iria me deparar com um palhaço numa biblioteca? Fui até a mesa dele, peguei um papelote, agradeci com a cabeça em silêncio, e fui embora. Coloquei o meu papel da sorte no bolso e só fui abrir quando cheguei em casa:

"Cada coisa, cada pessoa é um poema que se dirige ao Outro, figura desse Outro."
O meridiano, Paul Celan