quarta-feira, 2 de abril de 2014

Uma Odisseia com o Bad Religion - PARTE II - "Pão e Circo"

Antes de ler esse texto, é recomendável ler a parte 1, escrita após o incrível show de Seattle de 2010 no qual eu cantei com o Bad Religion a música Anesthesia. Leia saporra aqui: http://paulopilha.wordpress.com/2011/02/17/uma-odisseia-em-seattle-com-o-bad-religion/

Esta segunda parte poderia perfeitamente ter sido escrita quando eles vieram ao Rio em 2011 para se apresentar na Fundição Progresso. O problema é que na época achei que seria muita forçação de barra tentar cantar com eles pela segunda vez. Seria uma indelicadeza não só com o público presente, mas também para com os integrantes da banda, sobretudo o vocalista Greg Graffin, o homem responsável pelos meus três minutos de fama. A Fundição Progresso não é um bom local para a realização de shows de um modo geral devido a acústica ruim, e em se tratando de um show de punk rock, a coisa era ainda pior. O show não foi bem divulgado e o espaço era muito grande para a apresentação de uma banda que só tinha aparecido no rádio e na TV em meados de 1996, quando foi lançado o álbum “The Gray Race”. Ou seja, somente os fãs fervorosos iriam. Os fãs modinha de rádio, TV e Maria Vai Com As Outras, que costumam formar um grande público em shows e festivais como Lollapalooza e Rock in Rio, passariam batido pelo show dos dinossauros californianos do punk rock. Tudo bem, tem também a galera do surf e do skate, afinal, o Bad Religion é figurinha fácil nos vídeos de manobras radicais. Foi assim que a música “You” - que nunca aparecia nos set lists do grupo - se tornou do dia pra noite um hit que raramente deixam de tocar. 

O concerto na Fundição foi morno. Setlist totalmente previsível e apenas 24 músicas. No show desse ano no Circo Voador, Greg e sua trupe tocaram 29 músicas e atentem para um detalhe muito importante: o show da Fundição foi em setembro e do Circo em pleno verão. Os caras então me pegam um voo no gélido inverno norte-americano para desembarcar nesse maçarico do capeta pra tocar cinco músicas a mais que no ameno setembro carioca de 2011.

Logo que o show do Circo foi anunciado, eu mantive a mesma decisão de não tentar cantar com eles novamente. A partir de uma árdua pesquisa que eu mesmo fiz na internet, cheguei à conclusão de que apenas três pessoas no mundo tinham cantado uma música com a banda no palco. Três brasileiros. Os outros dois são paulistas e cantaram a música "Modern Man". Tentei conversar com um deles no Facebook, mas ele preferiu não aceitar minha solicitação de amizade e tampouco respondeu minha mensagem sobre o tema. Apenas leu o que eu mandei.

O baixista do Bad Religion frequenta quase que diariamente um site de fãs da banda no qual responde perguntas sobre os assuntos mais diversos. Ele não responde todas, mas até que escreve bastante. Diria que cerca de 60% das perguntas são respondidas. Depois do show de Seattle, fiquei conversando um bom tempo com ele ao lado do ônibus da turnê e o próprio, não um fã que estava no show, comentou no fórum que eu tinha mandado muito bem apesar do esquecimento de letra. “Até o Greg Graffin erra de vez em quando a letra, por que você não poderia?”, disse o simpático baixista em Seattle.

Faltando então cerca de quinze dias para o show do Rio, o primeiro da turnê sul-americana, perguntei no tal fórum se não teria como eu cantar "Anesthesia" novamente. Afinal, eu tinha esquecido um bom pedaço da letra e ele mesmo tinha dito que viriam ao Rio no carnaval para que eu pudesse cantar de novo da forma correta. É claro que ele falou isso de brincadeira, está inclusive no vídeo que gravaram da minha aparição, mas aproveitei o gancho da brincadeira para fazer um convite sério. Por que não? O Circo Voador é um lugar mágico. Não sou um ótimo cantor, mas também não sou um mau cantor. Seria um bom marketing para os próximos shows da turnê. Ok. Tudo bem. Poderia ser também o incentivo que muitos fãs precisavam para fazer o mesmo que eu contando com a elaboração de cartazes e mais cartazes solicitando a cantoria. A coisa poderia sair de controle para a banda, ainda mais porque os fãs latinos ficam muito elétricos nos shows. Sobem no palco para depois pular no meio da galera. Alguns shows no Rio foram insuportáveis por conta disso. Os fãs não deixavam o vocalista cantar direito: quando não estavam berrando junto com o vocalista alguma coisa não identificável entre o português e o inglês, davam um abraço de urso no cara durante algum verso. Felizmente o show do Circo teve uma segurança impecável.

                                              Esta pessoa com o dedo apontado para o palco sou eu.

Foda-se, eu pensei.  Não tinha nada a perder. Caso cantasse, no máximo receberia vaias da plateia. Se fosse em qualquer outro lugar eu ficaria na minha. Mas em se tratando de Circo Voador, eu iria tentar.

Jay Bentley, o baixista, respondeu outras perguntas, mas ignorou a minha. Só foi me responder alguns dias depois do show quando eu perguntei no fórum como foi o dia de folga no Rio:

Paulo Pilha: So Jay, how was your day off in Rio? Did you go to Ipanema beach? Or maybe see our huge Brazillian Jesus on the mountains?
Jay Bentley:  spent a couple of hours bodysurfing in the water at copa, went to the giant jesus dude on the mountain (great views!) and ate chicken at sats

(Sats é um restaurante em Copacabana que serve churrasco até altas horas da madrugada. Já fui muito lá. É incrível. Recomendo.)

                                                 Jay Bentley e seus backing vocals no Circo.

Só me restava então o plano B. Levar a mesma camisa da Croácia, que aliás é o primeiro adversário do Brasil na Copa do Mundo (mais uma coincidência), ficar bem na frente e torcer, como um fã de futebol, para que o Jay ou o Greg Graffin (vocalista) façam alguma piada sobre Seattle e se empolguem para me chamar ao palco. Mas chega de suspense, né? O Graffin me viu com a camisa erguida, chegou a pegar um livro pra autografar do cara ao meu lado, mas não fez piada, não sorriu, não esboçou absolutamente nada sobre a camisa da Croácia. Eu sei que ele viu a camisa e lembrou de tudo, eu sinto isso, mas deixou o racional prevalecer sobre o emocional. O plano não deu certo. Lá pela sexta música eu vesti a camisa novamente, depois de ficar agitando-a ininterruptamente e assisti o que seria o meu melhor show do Bad Religion. Muito por conta do setlist imprevisível e, claro, por ser no Circo Voador. Estava encostado na grade, suando feito um porco, ao lado de uma menina que sabia todas as letras, palavra por palavra, mas que reclamava de mim o tempo todo, como se eu fosse o grande culpado pelos empurrões que ela recebia. “Dá uma olhada pra trás. Olha a quantidade de gente que tem atrás de mim”, eu disse. “Deixa de ser chata e curte o show aí na boa. Se tá reclamando o tempo todo de empurrões, não devia ver o show na primeira fila”. Ela não disse nada, mas pelo menos parou de reclamar.

Talvez pouca gente ou muito provavelmente ninguém tenha associado a escolha das músicas do show com o momento atual de protestos e manifestações que estamos passando no Brasil. Ou pelo passávamos ou devíamos estar passando ainda. Enfim, alguma coisa do gênero. A banda trouxe ao país um setlist muito diferente daquele que vinha tocando na turnê atual. Vocês podem achar que é pura coincidência, que eu estou viajando, mas eu acho que a banda escolheu de propósito essas músicas inesperadas para mostrar que o brasileiro deve sim continuar protestando e lutando pelos seus direitos. A começar pela música “New America”, que não tocavam desde 2001. Isso mesmo. Desde 2001. E logo a mais forte de todas no que diz respeito a essa ligação com os protestos. Graffin trocou várias vezes a palavra “America” por “Brasília”. “Nós precisamos de uma nova Brasília, acorde a nova Brasília, essa é a nova Brasília!”. Outro trecho da letra diz “vitórias não significam nada se elas não duram, não temos que ter medo de nos reinventar, temos que começar a construir, progredir e implementar, pois quando pegamos nossa parte e nunca pagamos o preço, apenas construímos para nós um paraíso falso e fugaz”.

                                          Greg Graffin em ação no Circo. Fonte: www.rockemgeral.com.br

Aproveitou também para cantar a improvável “Raise your voice” que significa algo como “Eleve sua voz”. Trechos da letra mostram que “é a nossa desalentadora limitação que nos mantém vergonhosamente em silêncio, é nossa natureza sermos adversários e livres, nossa evolução não pode ser feita com passividade”. Poderia até fazer uma associação mais ousada, porém pertinente, com a esolha de outra raridade para o setlist brasileiro: “Skyscraper”. A letra fala de exclusão social, de egoísmo e mesquinharia. Me fez pensar em muitos políticos que montam seus impérios luxuosos com o dinheiro do povo e não deixam o povo “subir” junto. Todo mundo na lama, eles no paraíso. A letra faz uma clara associação à Torre de Babel e o refrão é “me construa, me despedace como um arranha-céu, me construa e depois despedace esses muros que se juntam e então eles (o povo brasileiro...) não podem  escalar conosco”. Outra também selecionada especialmente para a turnê brasileira foi “You are (The government)”. O nome já diz tudo. “Vocês são o governo”. O “povo é o governo”. Segue o trecho final da letra:

E enquanto o povo se curva, a estrutura moral morre,
O país não pode fingir que ignora o choro do seu povo
Você é a autoridade!
Você é a jurisprudência
Você é a volição
Você é a jurisdição
E eu faço a diferença também

Arrepiante, não é mesmo? Mas aí é nesse momento que você chega pra mim e diz: “ô Pilha, mas eles tocaram essas mesmas músicas em outros países da América do Sul e recentemente no Japão”. Não importa. Os primeiros shows da turnê foram no Brasil. Antes de montar esse set list eles pensaram na gente, não foi nos shows que fariam semanas depois em sei lá onde.  O recado está dado. Se não for possível ir novamente às ruas como em junho de 2013, acho que podemos pelo menos ficar de olhos bem abertos e fazer semanalmente coisas, mesmo que pequenas, que nos ajudem a construir um Brasil cada vez melhor. Wake up the new Brasília and Raise your voice!