domingo, 21 de setembro de 2014

A loirinha do ponto

Àquela hora da tarde, o sol já estava estalando no céu.

Graças às pessoas que iam embora no coletivo, todas ao mesmo tempo, era corriqueiro o fato de ele ter de ir a pé.

Mas eis que uma visão do céu o animou!
Uma linda loira estava parada no ponto central.
Ela não ia tomar o ônibus no qual ele estava, mas o fato de poder ver tal anjo o animou e tirou dele um sorriso!

Seus pensamentos foram longe!
Já imaginou a jovem moça dentro de um vestido de noiva!
Quem sabe o destino não faria algo no mínimo sobrenatural para que se conhecessem uma hora dessas! 


Pedia à Deus que tivesse a oportunidade de poder saber qual seria a linha que ela utilizaria.
Geralmente, no ponto onde se encontrava, as pessoas tinham a tendência de serem mais lerdas mesmo. Quando o coletivo parava ali... Podia esperar que ia demorar uma eternidade para dali sair.

Mas naquele dia ele não se importava nem um pouco.
De repente, surge no horizonte o ônibus pelo qual a moça estava aguardando.

"Aaaaah, então ela é de lá!" - pensou, quase que em voz alta.

Fitava aqueles fios loiros esvoaçantes do cabelo da princesa que ensaiava adentrar ao veículo, quando nota que ela faz uma cara de espanto, e tira do seu delicado bolso um iPhone 5S branquinho como algodão.

O semblante da jovem moçoila então se transforma. 
Exibe um belo sorriso, desiste de entrar no ônibus, e volta para a proteção contra o sol, do ponto onde estava.

Olhava ao longe, como quem procura alguém.

E foi assim que ele começou a aceitar que aquela talvez não seria um dia a mãe de seus filhos. Não seria ela a menina que se apaixonaria pelo seu lado romântico. Nem seria com ela o jantar de aniversário de três anos juntos, numa bela união, dali a três anos.

Sentiu então um forte chute no seu calcanhar.
A dor foi intensa. Quem causou aquilo estava munido de uma bota com bico de aço ou titânio, não saberia dizer.

O "agressor" pediu desculpas, e ele, com aquela cara de sofrimento, gemeu um "não tem problema" e decidiu voltar-se para a cena que há pouco tomava toda a sua atenção.

Mas espera aí... Cadê a moça?

O ônibus que ela quase utilizou há muito saíra dali. 
No ponto, ela não estava.
"Será que ela entrou nesse?" - Devaneou ele, num súbito lampejo de esperança!

Mas que nada.

Viu, um pouco mais atrás, que ela estava envolta nos braços de um moleque que faria jus à promoção "Colírios" da Capricho.

Mais uma que não seria dele.
Mais uma que alimentou seus sonhos, em aproximadamente cinco minutos de pessoas vagarosas adentrando o busão no qual estava.

O namoro, o noivado, o casamento, os filhos e os netos teriam de esperar um pouco mais.
Não seria a loirinha do ponto sua namorada, sua noiva, sua esposa.

Não quis continuar olhando para o jovem casal que desfrutava de um bonito momento de afeto, abaixo daquela palmeira, que ficava pertinho da Igreja Matriz.

Nem teve muita chance mesmo.
O coletivo arrancou, e ele deu sequência para mais uma tarde de descanso.
Ainda solteiro.
E pensando, quem sabe, numa possibilidade de num desses ônibus da vida, encontrar alguém que topasse viajar com ele.
Rumo ao desconhecido que a vida é.