sábado, 20 de setembro de 2014

Imprevistos previsíveis

Segunda-feira: Choveu na metrópole. O fato deveria ser encarado como uma grande sorte. A seca acima da média associada à falta de investimentos do governo fizeram com que os reservatórios atingissem os níveis mais baixos da história. Apesar disso as notícias não foram boas. A chuva em pleno começo de semana atrapalhou o trânsito, que ficou caótico em toda a cidade. Não chegou a ser uma tempestade, mas não precisa muito. Semáforos falharam, o número de automóveis aumentou ainda mais por conta dos que não queriam chegar molhados ao serviço, a prudência de motoristas no asfalto molhado, entre outros fatores, fizeram o trânsito parar.

Terça-feira: O sol voltou a brilhar forte, os semáforos foram consertados e a cidade estava seca – até demais – novamente. Neste dia manifestantes reunidos através do sindicato aproveitaram que o tempo havia melhorado para fazer um protesto por melhores salários e condições de trabalho mais dignas. Já estavam em greve há várias semanas, tinham apoio de outros setores, obtiveram vitórias na justiça contra supervisores intransigentes e seguiam em uma luta dura por seus direitos. As notícias giraram em torno do caos gerado nas ruas bloqueadas, transformando rapidamente o trânsito da cidade em um verdadeiro inferno. Não somente onde havia bloqueios, mas também nas ruas ao redor os carros não tinham como avançar, gerando uma reação em cadeia. Tudo parado.

Quarta-feira: Sol forte, nada de manifestações. Em uma das vias mais importantes da metrópole um motoboy corria contra o relógio para tentar cumprir os prazos cada vez mais curtos de entrega. Não fazia ideia que poucos metros adiante alguém mudaria de faixa sem dar seta. A cidade perdeu um motoboy. Ele, que passara a vida correndo feito louco para não deixar os patrões esperando, teve agora que esperar pelos peritos, que chegaram sem a menor pressa, várias horas depois do acidente. As notícias correram rapidamente: o trânsito parou. Só o acidente já havia bloqueado três faixas das cinco que formam a via, não bastasse isso os curiosos ainda passavam bem devagar, complicando o trânsito, travando as ruas adjacentes, gerando impacto nas grandes avenidas ao redor. Um caos.

Quinta-feira: O sol brilhava – insuportavelmente – na metrópole. Nada de manifestações e nenhum acidente grave havia sido registrado. No centro da cidade a polícia militar deu início à desocupação forçada de um edifício, dada à necessidade que este permanecesse desocupado, como nos últimos dez anos. As famílias, dezenas delas, que não queriam ceder a moradia à especulação imobiliária, reagiram. Foram paus e pedras contra cassetetes, bombas de gás, spray de pimenta, escudos, blindados, balas de borracha. As notícias repercutiram pelo país inteiro. Mais de 30 linhas de ônibus foram interrompidas e as ruas do centro totalmente interditadas. O trânsito sofreu os impactos por toda a cidade. Com o centro parado as principais avenidas começaram a travar, estendendo o engarrafamento para as ruas menores e parando toda a cidade. Um caos.

Sexta-feira: O sol apareceu novamente, não houve nenhuma manifestação, nada de acidentes de grandes proporções nem ações de reintegração de posse. Nada atrapalhava o trânsito a não ser, é claro, o excesso de carros. As ruas teimavam em permanecer engarrafadas, com buzinas em uníssono produzindo o som que parecia um grito de socorro atendido por ambulâncias que tentavam, sem sucesso, abrir caminho em meio ao caos. As notícias encontraram um caminho próprio e provavelmente definitivo. Deixavam claro como as novas faixas exclusivas para ônibus e, sobretudo as novas ciclovias passaram a fazer com que o trânsito da metrópole vivesse um estado de caos permanente. Não havia mais solução. De agora em diante os motoristas seriam obrigados a suportar, cada um dentro de seu próprio veículo, os congestionamentos monstruosos formados entre ciclovias e faixas de ônibus.