sábado, 27 de setembro de 2014

Brasil, o país em que nada dá certo?

"Ouvi dizer que no Brasil todo mundo é feliz"

Desprezar a história é produzir verdades com a experiência limitada de vida de qualquer pessoa. Em tempos de eleição, a política ganha espaço no cotidiano. Mudam alguns atores, esse ou aquele candidato, mas me parece que uma coisa permanece: a baixa autoestima dos brasileiros.

É comum ouvirmos por aí “o Brasil é um lixo”, “aqui nesse país nada dá certo”, falas que carregam aquela ideia de que o problema está no outro, de que quem fala não é responsável também, não é sujeito, mas vítima, objeto. A síntese genial é “você não está no trânsito; você é o trânsito”.

Há pouco mais de um mês terminou um festival que gosto bastante, o “Anima Mundi”. Trata-se de uma importunidade rara de ser apreciar toda sorte de técnicas de animação, curtas e longas metragens, de toda parte do mundo. No último dia do festival, há a premiação dos melhores filmes, em diversas categorias. Durante o anúncio de um dos ganhadores, pude ouvir “ah... é brasileiro? Deve ser uma merda!” 

Durante a última Bienal do Livro o consagrado fotógrafo mineiro, Sebastião Salgado, foi convidado para um bate-papo com o público. Em dado momento, ele chamou a atenção para o fato de que, em geral, nós brasileiros tentamos esconder nosso passado indígena. Ele até brincou dizendo que em São Paulo todo mundo era descendente de italiano! Somado a esse exemplo, basta observar a tentativa do Brasil de querer diferenciar-se do restante da América Latina, como se não compartilhássemos nada. “A Bolívia é indígena, nós não”, só pra ficar entre vizinhos.

Com o livro “O povo brasileiro”, temos uma ótima oportunidade de ser menos ignorantes com relação ao nosso passado. Nele, Darcy Ribeiro discute a criação da colônia, desde a invasão (e não descobrimento) dos portugueses até o século XX. Não podemos nos esquecer de que quando os portugueses invadiram, não trouxeram consigo as portuguesas; logo, as índias foram as mães dos chamados brasilíndios. Interessante notar é que esse sujeito ficou perdido, sem identidade. Por um lado, ele era desprezado pelo pai, que não o reconhecia como europeu, branco; por outro, desprezava a mãe indígena, considerando sua cultura subalterna. A introdução da cultura negra é igualmente considerada menor, sob essa perspectiva.

Séculos se passaram desde então. Muitas mudanças, mas essa percepção de hierarquia, ao que parece, permanece intacta. É claro que não podemos nos esquecer de que com o fim da Segunda Guerra, a cultura produzida nos EUA foi elevada ao mesmo patamar da cultura europeia (talvez num status até maior) e continua a ideia “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Qual é? Não se trata de nacionalismo irracional, mas já está mais do que na hora de melhorarmos a nossa autoestima!

Eu não acredito em nacionalismo porque é fácil cair no fanatismo e se esquecer da solidariedade entre os povos, já que o resto do mundo não presta, entre muitas outras coisas, mas é importante desenvolver um olhar mais generoso para conosco. É óbvio que temos um montão de problemas, que tem gente corrupta, oportunistas de toda ordem, injustiças, violências, mas isso não significa que seja próprio do nosso DNA. Quanto mais nos livrarmos da ideia de que as coisas sociais são naturais, melhor. Nascemos assim ou fomos levados a agir desta ou daquela forma?

Particularmente acho triste esse ódio ao Brasil quando ele vem da boca de jovens. Muitos deles sequer cruzaram a fronteira. As notícias que chegam do estrangeiro são da internet, filmes, séries televisivas, boatos e etc. Para alguns, pode ser chocante imaginar que nos EUA há pobres ou que só se tem atendimento médico quem tem um seguro saúde (algo como nossos convênios particulares). Veja, não estamos falando em atendimento de má qualidade, não existe atendimento médico para quem não pode pagar, simples assim. Vale a pena lembrar que muitos brasileiros contribuem para o desenvolvimento da ciência e das artes no exterior, por exemplo, mas o que se sobressai é o país que financia.

Acredito que enquanto seres humanos podemos  –e devemos!- nos inspirar nas boas ações de outros povos, buscando viver num país melhor. A troca é saudável, inteligente. Minha avó dizia que só não tem solução para a morte. E quais alternativas estão sendo pensadas por você? Não dá para ter resultados diferentes com as mesmas ações.