domingo, 28 de setembro de 2014

Culpabilização e a Falácia do Mundo Justo

Escrever um texto, mesmo que superficial, sobre alguns dos temas em pauta nos discursos feministas, como a culpabilização da vítima, não é exatamente uma tarefa simples. Primeiro porque sinto que me falta embasamento suficiente (e, creio que sempre irá faltar), então acredito que o texto ficaria incompleto. Segundo, porque, de certa forma, enquanto branca, hétero e de classe média, pertenço a um grupo primordialmente opressor, e não passarei pelas mesmas situações que uma mulher negra ou alguém trans*. Racismo e transfobia são potencializados, quando associados à misoginia, e a luta deles é ainda mais difícil que a minha.

Entretanto, ainda sou mulher, ainda estou inserida numa sociedade que prima por um discurso machista e onde ter comportamento feminino é algo ruim. E acredito que começar a falar sobre isto abertamente é um primeiro passo.

Fomos criadas e condicionadas a uma cultura de medo revestida de “boa educação”, uma lógica de negação das coisas básicas, de "garotas não devem jogar futebol" a evitar usar uma roupa curta num dia quente, para não sofrer assédio – e ainda assim, o pior acontece: mesmo quando você toma as.... “medidas preventivas”... e sofre o assédio, há a acusação: sua roupa, seu comportamento, sua vida sexual... justificando a violência, a responsabilidade recai sobre a vítima, não no agressor. A brutalidade é minimizada a qualquer custo.

Creio que o pior disso é que, não basta você se sentir podre por ter passado por aquela situação, sofrer a tensão diariamente, ainda vem algum idiota e te culpa e, se você não tiver a cabeça no lugar, começa realmente a achar que o problema é com você. Isto é a chamada falácia do mundo justo, a crença de que sistema em que vivemos é justo e cada um tem exatamente o que merece. Como uma punição universal, só que adaptada para valores individuais.

Mas, acredite, o problema não é você.

The Victim, by KkFranca: http://kkfranca.deviantart.com/art/The-Victim-408071661

Este mês foi julgado o último envolvido no caso de estupro coletivo das mulheres de Queimadas, crime ocorrido em fevereiro de 2012, as famílias das vítimas ainda sofrem agressões por parte da população – as garotas mereciam, ora porque eram prostitutas, ora porque se faziam de difíceis.

Em outubro de 2013, em Goiânia, Fran teve vídeos íntimos vazados na internet pelo ex-namorado, e foi publicamente hostilizada por ter feito sexo e ter permitido que ele gravasse. No mesmo ano, outras garotas que sofreram com situação semelhante, optaram pelo suicídio.

Em março de 2013, Simone Lima, uma professora, foi esfaqueada por um estudante, Thomas Hiroshi Haraguti, de 34 anos; ele foi condenado a 16 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado – o advogado de defesa pretende recorrer da decisão, alegando Síndrome de Misoginia Involuntária.

Em fevereiro de 2011, na zona rural de Pindorama, um fazendeiro foi pego em flagrante com duas adolescentes, uma de treze e outra de quatorze anos, ao ser detido, alegou que havia pago pelo sexo – foi detido, acusado de favorecimento à prostituição e estupro de vulnerável, foi absolvido há dois meses atrás.

São alguns casos famosos, mas a história se repete em vários lugares e de maneiras absurdas, às vezes entre quatro paredes, às vezes a céu aberto. Existem mulheres que conseguem se erguer e dizer basta, existem outras que ajudam e as que são ajudadas, e, infelizmente, aquelas que são silenciadas.

A mulher que morre no aborto clandestino (uma a cada dois dias), a que apanhou do namorado lutador (e o título da matéria estampa que ele levou “arranhões em briga com a namorada”), a garota que sofreu abuso por não ter usado o vagão rosa, a mulher trans* que foi retirada do vagão rosa e foi destratada pelos seguranças do metrô, a mulher que deixa de conseguir emprego porque está grávida... Infinitos casos escondidos e nenhuma destas pessoas é menos importante, só porque teve menor visibilidade. São vítimas de uma sociedade doente.


Já sofri abuso sexual.

Já fui assediada ao andar na rua.

Já mudei de roupa antes de sair de casa.

Já me culparam por ter sido assediada.

Fizeram brincadeiras sobre o abuso.

Já desisti de sair, por não querer correr o risco de passar por alguma situação desconfortável.

Não garanto que tudo isto vá se repetir amanhã, mas, certamente, vai se repetir. É um fato.

É justamente por isto que é preciso falar. Cada vez mais. Cada vez mais alto.

Ser conivente não é uma opção.