segunda-feira, 29 de setembro de 2014

perfume

infelizmente não disponho de tolerância suficiente para simplesmente ignorar comentários ignorantes e bestiais. confesso tenho problemas sérios com isso e para não perder o costume e personalidade porque faz parte ter uma resposta tão idiota quanto ou pouco menos ignorante aceito algumas provocações e até me permito o luxo e riqueza de rir alto com alguns comentários.


sempre gostei de perfumes, tenho uma relação íntima para não dizer quase louca com cheiros sejam dos mais estranhos e esquisitos; por exemplo cheiro de mato queimado, de banho, de chuva em terra seca, de folhas e flores molhadas com garoa, de tijolinho à vista em casa nova ou velha com chuvas torrenciais, de casa limpa ou até suja desde que seja a minha, de shampoo no cabelo seco, de esmalte, de acetona, de tintas, de gelo seco, de brisa, de mar, de cachoeiras e quedas dágua em pedras, cheiros de quase tudo me causa sensações de alquimia pura.


talvez tenha o olfato apurado ou não talvez apenas goste de apreciar os cheiros. quanto se trata de perfume isso remete diretamente para minha mãe pois não existe mulher mais cheirosa no mundo pode ter a certeza; com ela aprendi a escolher os perfumes a saber qual tem 100% de entrada e saída, qual fica melhor na pele e quais lugares devem receber várias borrifadas.


aprecio sem moderação perfumes e se pudesse teria vários com ou sem marca um para acordar outro para dormir, gosto tanto de um certo cheirinho para dormir, aninhar num peito e ficar, sentir aquele cheiro de banho no pescoço, tão bom e gostoso.


se me perfumo leio e se leio viajo. desta vez fui para áfrica e a viagem iniciou já no pegar o livro e ao sentir o cheiro. sabe cheiro de papel velho, gasto, onde traças passearam e deixaram aquele amarelado do tempo, um cheiro de ideologia do passado de esperanças passadas. 


em mayombe é quase impossível imaginar cheiros que não sejam das árvores, folhas e flores, rios e terra. como também é inconcebível imaginar homens de guerrilha com empenho total em tomadas de terras e tribos e na realização da revolução preocupados com os cheiros do sovaco a ponto de parar o conflito e pedir licença para descarregar uma borrifada de desodorante x ou z ou pingar uma gota da essência francesa. 

então imagine o operariado na metade do conflito na comuna ou o che ou hugo chavez em reunião de acusações da onu pedindo pausa para fazer o ato de se perfumar para guerra e quem sabe vencer o inimigo pelo cheiro. pior do que isso é imaginar que neste século comentários se prestam ao desfavor do conhecimento ao tentar desconstruir uma ideologia que se pauta na equidade e justiça social embora contenha todos erros históricos ainda que menores ao que está posto hoje.


em tempos eleitorais a distorção de fatos e propostas ganham proporções assustadoras em simples comentários, entrevistas e debates; chega a ser ridículo para não dizer absurdo, cansa e estarrece. e para jamais estagnar o conhecimento, a curiosidade e a esperança sigo as letras do querido pepetela com o cheiro de mayombe.


(...) quando alguém afirma que tem de acreditar no desinteresse de alguns homens, porque isso corresponde a ideia que ele tem de humanidade, mesmo que os fatos mostrem o contrário, então que é isso? tem-se uma ideia preconcebida do gênero humano, uma ideia otimista. por isso, recusa-se toda realidade que contrarie essa ideia. é o esquematismo da política. é um aspecto religioso, uma concepção religiosa da política. infelizmente é a maneira de pensar de muitos revolucionários. 

- mas, camarada comandante não achas que há camaradas que estudam desinteressadamente? 

- crês que haja alguma coisa que se faça desinteressadamente da vida?

lutamos pensou que encontrava apoio do comandante. sentiu coragem para proferir. 

- é por isso que não estou de acordo com o comissário que nos obriga a ir à escola. (...)


as pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. o homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. se não percebes as palavras que eu pronuncio, como pode saber se estou a falar bem ou não? terás de perguntar a outro. dependes sempre de outro, não és livre. por isso toda gente deve estudar, objetivo principal duma verdadeira revolução é fazer toda gente estudar. (pepetela, 1982:78-79)