quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Carta a Alguém

Os diálogos que tive contigo desde que decidir virar as costas e ir embora, foram inúmeros. Ainda rio de algum comentário sarcástico que você faria, do jeito empolgado que cantaria músicas antigas ou a utilização do pretérito perfeito em qualquer frase.
Demorei a entender que a verdade estava escancarada enquanto o irracional acobertava. Era nítido que o encontro de nossos caminhos seria breve e é por este motivo que escrevo a carta de despedida à você,  Alguém.
Sou muito grata por ter me tirado do lixo que me escondi com o meu último pseudo relacionamento, proporcionando o que tinha esquecido: a reciprocidade de afeto, mesmo que por um curto período. Nossas afinidades imediatas carregaram as baterias de possibilidade da paixão. A paixão veio e com ela, seu tempo limitado. Como a maioria dos encontros na vida adulta, há sempre três na relação a dois. Seja um fantasma, um amor mal resolvido, uma porta aberta. Não foi diferente contigo que entre duas pessoas, acabou arrastando uma terceira pessoa: eu.
Na falta do amor próprio e com as migalhas alimentando as poucas borboletas que ocupavam o estômago, segui esta dieta por um ano. As borboletas acostumaram e não havia fome ou gula, apesar de vez ou outra, o estômago embrulhar pedindo novos alimentos, como no dia que eu vi vocês dois atravessando a rua sem querer,  ou passando por mim na tarde que deveria ser apenas minha. Antes, enxergava como coincidência e hoje, percebo o quanto fui teimosa em não olhar os sinais que o universo me enviou sobre a brevidade da sua vida na minha.
Fui tão culpada quanto você neste relacionamento velado. Era cômodo para ambos, compartilhávamos nossas angústias, desejos, ríamos de besteiras no período de segunda a sexta. Não tinha cobranças e por qual motivo, teria de existir algum se não tínhamos nada? A parte boa, você guardava para ela. Os beijos, o sexo e os carinhos trocados. Os problemas e o ombro, poderiam esperar até segunda, quando eu estava de volta à sua rotina.
Adorava não precisar arriscar nada além de algumas noites com qualquer outro homem. Tinha você e eles supriam algumas carências físicas. Nas comparações, você sempre ganhava. A zona de conforto era meu espaço conquistado. Vez ou outra, recordava de como por um triz, quase fui a escolhida. Diversos dias, revirei na minha mente o que foi que eu fiz de errado para ser a segunda e não, a primeira.
Mas, como todo relacionamento a três, depois de muito treinar e ensaiar, percebi que poderia escolher e deixar de ser a escolhida. Um dia, a gente cansa da segunda opção e percebe que isto e nada são a mesma coisa no ponto de partida, do nada a qualquer lugar que ainda não conhecemos. Foi assim que virei as costas e fui embora sem ao menos te dizer tchau, Alguém.
Doeu você não vir atrás, dizer que sentia minha falta e que gostaria de me ter de volta. Tempos depois, senti alívio por isto não ter acontecido. Diante das minhas fraquezas, era capaz de puxar a cadeira na zona confortável e continuar assistindo ao teu relacionamento, me sentindo um lixo por não ter o meu contigo ou com outro alguém. Os meses passaram e o tempo ajudou a amenizar a saudade e abastecer a confiança de tentar novamente. Ainda não encontrei o que procuro, mas mantenho firme que olhar para trás não é opção.
Espero que você esteja feliz, Alguém. De maneira ingênua, acho que não fez por mal. Que talvez tenha se embolado tanto quanto eu dentro deste novelo. Do lado de cá, quase caí em outra armadilha parecida com a tua. Obrigada por me ensinar que este não é o caminho.
Hoje, minha fome não se contenta com migalhas e as borboletas, esperam mais.
Um beijo,
Ninguém.