sábado, 29 de novembro de 2014

As coisas ou apenas pensando em você

Pensando em você, inventaram muitas coisas, algumas para facilitar o dia a dia e outras nem tanto.

De todas as quinquilharias e bugigangas tenho simpatia pela roda. Em pensar que essa engenhoca perpassou séculos como parte essencial da carroça, depois da bicicleta, carros, motos e aviões. Aliás, é incrível como algo tão grande e pesado ainda hoje precisa de rodas para voar, é mesmo impressionante para não dizer curioso porque ainda não inventaram aviões que simplesmente deslizem na pista e num segundo vuuuuuumpt estejam nos céus de encontro com as nuvens.

   O pensando em você, promoveu uma lista imensa de coisas necessárias da roda para o rádio, TV, telefone, PC e outras tantas mais com o objetivo de poupar energia, esforço, para tornar a vida humana [ou de coisa?] mais confortável e porque não dizer torná-la melhor ou alguém duvida disso? Será que existe algum saudosismo dos tempos das cavernas? Por acaso escutei um amém? Um eu? Um aqui? Não? Ufa, oxalá Deus, ainda bem, sinto alívio de saber que ninguém sente saudade de tempos passados, bom, pelo menos não dos tempos da caverna.

 É quase justo dizer que o todo inventado neste mundo é para facilitar e não complicar a vida e disso quase ninguém reclama, exceto quando não tem o devido acesso. E em pensar que poderíamos viver apenas de pensar em criar coisas para simplesmente facilitar o dia a dia para vivermos melhor e quem sabe aproveitar os dias de existência. Em pensar, por que [ainda] não permitiram uma forma, um sistema para que todos tenham o mesmo acesso, para uma vida mais descomplicada, fácil e satisfatória para todos e não para poucos.

Há tanto para criar com o objetivo de simplesmente viver e desfrutar de tudo quanto se pode inventar e temos de bom grado do planeta: chuva, água, sol, mar, vento, mas de tão inebriados com coisas, em apenas ter coisas sabendo que quanto mais tivermos mais aumenta a necessidade de criar espaço para coisas efêmeras que deixarão de ser importantes daqui algum tempo; mais importante é pensar em como reciclar ou reaproveitar do que adquirir mais. Nosso espaço sinaliza urgência para pensar nisso, de modo a respeitar mais o ambiente em que vivemos, ou melhor, habitat? Ou alguém já colonizou outros planetas com gente ou mais lixo e não estou sabendo? Sendo necessário criar urgentes soluções para o que não tiver mais espaço, utilidade.

Mas o pensando em você, te ajuda até nisso, a eficiência não está apenas em criar para consumir, mas também no pensar por você e disseminar a ideia de que não é preciso se preocupar basta você exercer o direito de cidadão a cada quatro anos ou dependendo do país cinco ou sei lá quantos anos mais, ao eleger alguém com tempo de vida curtíssimo posto a idade avançada e, portanto pouco importa o que será do planeta em 50 ou 100 anos, sendo importante apenas te representar e pensar por você, para resolver tudo para você, para que agora você tenha mais tempo para o trabalho para conquistar as coisas criadas por àqueles que só pensam em você.

Tanto é que a palavra de ordem atualmente é poupar energia, investir na tecnologia para aperfeiçoar a vida, na verdade ganhar mais tempo [e tempo é dinheiro] para a vida e para o trabalho; mesmo que o essencial – o trabalho - esteja em falta, inclusive sendo mão-de-obra super qualificada como têm na Europa, ou extremamente desvalorizada como noutros países desde que possa garantir maior crescimento (de quem?) em escala mundial, envolvendo todos os países e com isso elevar à décima potência a vida (de poucos) humana o discurso se prolifera de que o crescimento é para o bem de todos, para que desfrutem das facilidades de quase tudo que se cria na certeza de que foi pensando única e exclusivamente em você, portanto é para o seu bem.

Então inventaram as sextas mega promocionais, o charme e singularidade de chamar sua atenção como se fossem velhos amigos, do tipo: olha pensando em você enviamos o desconto de tanto em tal coisa, pensando em você dedicamos está promoção, pensando em você segue esta assinatura de tal revista com preço reduzido com 50% de desconto quase a preço de banana, e veja o quase de graça desconfie, deve ser uma porcaria, pois nada que seja de graça mereci bom proveito. E segue uma gigantesca lista de quereres de coisas criadas pelo pensando em você, incentivadas pelos representantes no discurso de que não há motivos para alarde, pois o mundo está exatamente como era noutros séculos, nada se alterou praticamente ignorando o que os cientistas mencionaram como alerta de que a existência humana está em risco e ao dizer que a nossa parte está feita em alertar falta a de vocês políticos em fazer algo, portanto não se preocupem, não participem, resolvemos tudo para você, quase no toque camarada do estamos pensando em você mesmo que estejamos no bico do corvo daqui alguns anos.

De todas as coisas que criaram essa com certeza foi à pior delas, tentar convencer a todos de que não é preciso participar da resolução dos problemas, que basta elegermos alguns representantes para que pensem e façam por nós, de modo a resolver, ainda que a solução não nos contemple; quando em grande parte ou na maioria das vezes os problemas foram criados por àqueles que só pensam em você, como potencial consumidor, sem a mínima oportunidade de pensar que tudo tem vida útil e precisa de destino [inclusive o humano], para não dizer um lixo e por isso é essencial a participação e cooperação dos sujeitos, diga-se são protagonistas nesta história da criação e destruição.

A solução dos problemas requer uma força e pressão de todos, para que aconteça é necessário o vetar que outros pensem e façam por você o que é de única responsabilidade. É evidente que todos não poderiam ocupar os mesmo espaços, mas é incontestável que aqueles que lá estão para nos representar compreendam que o lugar ocupado nada mais é que um empréstimo e não os pertence; mesmo que alguns ocupantes sejam semelhantes, por exemplo, que seja da sua cor, credo, crença não estão imune da disputa de poder de quem pensa o tempo todo em você como coisa a consumir coisas. Sendo essencial a participação e pressão de todos os envolvidos.

Se começar a pensar e agir por você mesmo vai notar que embora possua facilidades no dia a dia que são importantes e outras nem tanto, não é o bastante para de fato desfrutar das coisas e viver, mas apenas está vivendo para ter mais coisas e por coisas; em algum momento irão perceber que embora participe do festival de preços reduzidos e tenham tantas coisas como qualquer mortal ou na verdade como bem poucos o acesso à justiça e direitos são limitadíssimos se comparado com àqueles que só pensam em você e por você [para o consumo].

Sendo fácil perceber que a possibilidade de facilitar o dia a dia com coisas não te faz igual, e algum momento isso irá te forçar a pensar, a agir e provavelmente protestar de forma tão indignada que a primeira ação é destruir o que em certo momento você almejou ter, ou melhor, o que tanto àqueles que não pensam noutra coisa a não ser em você [como consumidor] fez com que desejasse ter, querer de todas as formas a ponto de não perceber que não importa o quanto você tenha de coisas que facilitam o dia a dia o acesso à justiça ao termo igualdade é limitado e não interessa a quem, ainda que seja o homem considerado o mais poderoso não poderá garantir justiça para todos, inclusive àqueles semelhantes a ele na cor e na origem. 

Mas alguém levanta e diz não é bem assim, existem pessoas que se importam com outras coisas – ah tem o amor! Não somos apenas consumidores de coisas. Pois é, até nas relações o pensando em você agiu [ou pensou por você?], exemplo disse são as relações de contrato ou aparência como dizem. O filme engraçadinho que ilustra bem isso é o “Amor por contrato” óbvio retirando da discussão o final mentiroso dos felizes para sempre o filme trata de forma bem realista como o pensando em você [consumidor] usa as relações sociais e a vidinha da família feliz como bem querem para que comprem mais coisas, inclusive o “amor” e a felicidade.

Noutro dia, numa troca de canal, escutei certo filósofo num programa da Cultura discorrer sobre a felicidade como uma invenção, ao dizer que desconfia dela, de que você precisa ser feliz; por que atualmente para estar feliz você precisa ter, precisa de coisas e a necessidade de ser está em último plano por que é urgente e preciso estar feliz, é preciso adquirir para ter a felicidade, pois te dizem o tempo todo que ninguém pode estar triste. Acredito que do ponto de vista da religião isso também é válido, pois ninguém aceita que o outro esteja triste, pois é preciso ter fé você vai conquistar as coisas que deseja ou enquanto se manter naquele pensamento positivo a depender do que acredita você vai alcançar àquelas coisas. A tristeza é para perdedores e perdedores não tem coisas, não compram, não tem nada e não alcançam a felicidade - o meu destino é a felicidade num amontoado de coisas, pois quero estar melhor e diferente, não quero ser igual a ninguém, quero ter coisas diferenciadas para ser único.   

Tão difícil quanto é perceber que você acaba acreditando em mentiras que te contam todo santo dia, pior ainda é saber que o pensamos em você, pensa em tudo absolutamente tudo menos em você. E se ainda não conseguiu perceber quem sabe num momento qualquer note que muitas invenções estão totalmente desconexas da paisagem e se tornaram irrelevante para àqueles que perceberam melhores criações ou talvez perceba que em exato momento a principal invenção está em algo melhor, como por exemplo, viver, seja mais “triste” do que feliz com pouquíssimas coisas, apenas viver.