terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A filosofia do “ele quem?”

Minha mãe é nordestina e virginiana, o que a torna um misto de praticidade e dureza que não me era fácil entender quando criança. Aquele sentimento materno de doçura, compreensão e colo em qualquer circunstância era lindo... Na televisão. Eu achava bem difícil não poder chorar, nunca, nunca, nunca, pois nada era suficientemente ruim para merecer meu sofrimento. Eu vi minha mãe chorando duas vezes. DUAS. Na vida. E uma foi no enterro da minha nonna (sua sogra), mesmo assim ela só chorou um pouquinho. Isso não quer dizer que minha mãe não sofre, quer dizer que minha mãe é forte.
Eu sou escorpiana, tenho ascendente e Lua em Peixes, portanto, sou só água. Isso quer dizer que água verte dos meus olhos desde sempre. Choro muito. Vivemos toda a vida assim. Não deixei de chorar, minha mãe não deixou de ignorar meus choros. Sou bem grata a ela. Acho que não endureci, mas aprendi que chorando ou não, a vida tá aí, sempre a postos para me pregar umas peças, dar-me uns pequenos desgostos e, com lágrimas ou não, tenho que adotar posturas práticas diante das coisas que me fazem sofrer. Posso demorar mais ou menos para parar de chorar. Mas vou parar. Isso não é uma escolha. Sendo filha da minha mãe, essa é a única opção.
Esses dias eu caí uns tombos sentimentais e sofri bastante. Minha mãe tem o péssimo hábito de não mensurar muito o meu sofrimento, na cabeça dela é uma coisa que sempre vai passar. Acho que na cabeça dela eu é que sou forte. Não se trata de desrespeito, trata-se apenas de pular a parte das lágrimas para a crença que vou tirar de letra. Como dessa vez chorei bastante, mais que de costume, minha mãe ficou um pouco mais atenta. Como sempre, nunca deu corda para o sentimento, apenas perguntava, bem mais que de costume, se estava tudo bem. Foram vários e vários dias assim, ela perguntando, eu respondendo que não, mas que ia passar. A conversa logo seguia outro rumo, minha mãe nunca deu atenção demais a sofrimento. Em outras palavras, minha mãe nunca revira nada de ruim. A vida que dê conta.
Moderna que só, semana passada me mandou um whatsapp: está melhor? Respondi que sim e, como foi a primeira vez que eu disse sim logo de cara, ela respondeu: graças a Deus. Expliquei que estava melhor porque percebi que não havia o que eu poderia fazer, que fiz o meu melhor e que cabia a mim respeitar as escolhas que ele fez. Quis explicar a minha mãe, detalhadamente, meu pensamento prático em relação a uma situação que tinha me feito sofrer tanto. Achei que ela bateria palmas (ela está viciada em manter conversas apenas com emoticons), ou dissesse outra coisa que mostrasse que estava feliz pelo fato de eu estar agindo, não sofrendo. Que diria estar contente por eu ter saído dessa, que eu a orgulhava.
Minha mãe respondeu apenas: ele quem?
Fiquei olhando para a tela alguns segundos. Não era ironia. Nunca é. Minha mãe estava falando sério. Ela estava perguntando, realmente não sabia. Tinha esquecido, isso não era mais importante para ocupar bytes de sua memória. Minha mãe não lembrava mais e, na hora, percebi que também não me importava mais lembrar. Recordar a gente recorda sempre, mas remoer, martelar, chorar e sofrer, aprendi com a minha mãe: não. Os ‘7,0’ que tirei nas provas, os ralados no joelho, as falas erradas no teatrinho, os tombos, as brigas na escola, a colega pentelha, a professora sem noção, os cortes, os objetos perdidos, as tormentas que pareceriam não ter fim, as desilusões, as pequenas derrotas diárias... Fracassos tão pequenininhos que hoje olho e me esforço bastante para lembrar: quem? quando? onde foi mesmo?
Sábia mãe. Essa filosofia pode ser adotada para um monte de pequenos sofrimentos que não valem a pena serem levados adiante. É uma sábia escolha. Espera. Não é uma escolha. Sendo filha da minha mãe, essa é a única opção.