domingo, 22 de fevereiro de 2015

A moça do sovaco cabeludo

Naquele dia, a moça decidiu que não depilaria as axilas. 

Nada aconteceu de extraordinário à rotina daquela moça que a fizesse tomar aquela singela decisão. Fazia sua toalete como de costume, mas subitamente retraiu o braço quando este ia em direção ao depilador. Há coisas nessa vida que fazemos sem grandes elucubrações, sem consultarmos pai, mãe, tarólogo ou lugares recônditos de nossa consciência, apenas o fazemos. E assim move-se o mundo. 

Hoje não - pensou - e naquele dia não houve depilação.

Nem no outro.

Nem no outro ou no outro ou no outro. Os pelos, como se sabe, não crescem assim do dia para a noite, de modo que foi somente pela manhã do quinto dia que eles começaram a aparecer com força. E a moça achou bom. Não que os achasse bonitos, garbosos, sedosos... definitivamente não. Apenas achou bom. Era confortável tê-los ali. Lembrou-se até de uma famosa frase que dizia: "Pelos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-lo?" ou algo assim, já não estava bem certa agora. 

O filho caçula foi o primeiro a perceber.

- O que é isso mamãe? - disse apontando o sovaco da mãe.
- Pelos.
- Como os do papai?
- Sim, como os do papai.
- Ahh.. - deu-se por satisfeito o menino e saiu pela casa atrás de sua bola amarela.

Durante o café da manhã foi a vez do filho mais velho:


- Mãe! A senhora está bem?

- Sim, filho... e por que não estaria?
- É que tem pelos ali, embaixo de seu braço. A senhora viu?
- Sim, pelos. Acaso também não os tem?
- Sim, mas é que eu sou... bom, estou atrasado, mãe. Acho melhor ir agora - e se foi, evitando olhar para a mãe.

Ao marido, que àquela hora já acordara e se arrumava para o trabalho, tampouco lhe escaparam os novos pelos da esposa. Foi com indisfarçável espanto que a questionou:


- Você vai sair de casa assim?

- Assim como?
- Ora, assim... com estes pelos à mostra. Se acabaram-lhe as lâminas, me diga que eu lhe compro outras. Acaso algum dia deixei faltar algo nesta casa?
- As lâminas estão em perfeito estado...
- E então?
- Simplesmente não as quero usar. Não as vou usar. Deixarei os pelos tal como estão aqui, assim como você deixa aí os teus.
- Ahh, mas é que eu sou HOMEM! - disse e se foi, batendo a porta atrás de si.

A moça também logo se foi e, dia quente que estava, foi com os pelos à mostra. Aos poucos, como que por algum magnetismo, todos os olhares dos transeuntes pareciam repousar em seu sovaco, agora sensivelmente cabeludo. A moça, sempre tão discreta, não se recordava de alguma ocasião ter sido alvo de tamanha curiosidade. Na verdade, ela sempre pareceu caminhar invisível. Agora não, agora ela tinha pelos.


Foi quando aconteceu.


Enquanto caminhava, rumo ao trabalho, a moça sentiu que algo lhe passava. Primeiro deixou de sentir as pernas, motivo pelo qual parecia que flutuava. Depois foram os braços que passaram a lhe faltar. Súbito, foi-se o tronco e a cabeça, de modo a só lhe restar o sovaco. Assim, já não era mais uma moça, mas apenas um sovaco cabeludo. E foi assim, ainda tentando entender e se adaptar a esta nova e insólita situação, que a moça - agora resumida a suvaco - seguiu pela rua, sempre ouvindo dos que passavam:


- Veja ali, que coisa, um sovaco cabeludo!


No escritório foi o mesmo. Até mesmo os que nunca lhe notavam, não deixaram de notar o sovaco.


- Ora, vejam! Um sovaco... e cabeludo!


Ela tentava retrucar, como fizera com marido e filhos, mas sovaco não fala - ao menos até que se prove o contrário - então tampouco a escutavam. Se pudesse, teria-lhe dito que eram pelos, apenas pelos, mas não podia.


Ao voltar pra casa, uma surpresa. O filho caçula a recebeu com um abraço.


- Vem, vamos brincar mamãe!

- Como assim? Não vê que sou apenas um sovaco? - perguntou e, ao fazê-lo, espantou-se por ouvir o som de sua própria voz.
- Do que está falando, mamãe? Vem, vamos brincar!

O mesmo não se passou com o filho mais velho e com o marido.


- Olha só, pai... um sovaco cabeludo!

- Sim, filho... sim... vamos, vamos jantar...

E assim passaram-se os dias. 


Todas as noites, o marido olhava para o lado da cama outrora ocupado pela esposa e via aquele sovaco cabeludo, cada dia com mais pelos a lhe enegrecer. Até que certa vez, no meio da noite, o marido se levantou para ir ao banheiro. Fez suas necessidades como de costume mas, subitamente, algo atraiu sua mão em direção ao depilador. Ficou estudando o pequeno objeto por alguns instantes e, quase maquinalmente, começou a depilar o seu próprio sovaco.

Há coisas nessa vida que fazemos sem grandes elucubrações, sem consultarmos pai, mãe, tarólogo ou lugares recônditos de nossa consciência, apenas o fazemos. E assim move-se o mundo.

Na manhã seguinte, era novamente sua esposa que estava na cama com ele.