segunda-feira, 20 de abril de 2015

E se...?

Hoje são tantas as grandes cidades e tamanha a supremacia do estilo de vida urbano que por vezes esquecemos o quanto é recente a sociedade vivendo fora do campo. O homem sempre viveu o mais próximo possível da produção agrícola, as cidades eram pequenos povoados se comparadas às atuais e serviam principalmente como pontos de comércio, para um consumo de produtos mais diversificados do que a própria plantação.

Foi com a revolução industrial que o fluxo migratório se intensificou e com o advento da linha de produção que a sociedade definitivamente encontrou um rumo aparentemente ideal. As indústrias precisavam de cada vez mais mão-de-obra e pouco a pouco desenvolviam máquinas para a lavoura, substituindo o trabalho do homem. As peças pareciam ter se encaixado. A maior parte da população passa a se concentrar nas cidades, que abrigam indústrias carentes de trabalhadores, enquanto um mínimo necessário permanece no campo, onde a produção agrícola aumentou mesmo com menos trabalhadores.

O paradoxo é que a tecnologia não tem limites e, sendo o lucro a principal meta de uma indústria, a mão-de-obra humana passou a ser gradualmente substituída por máquinas e computadores. Onde há pouco tempo grandes galpões reuniam centenas de trabalhadores para executar uma tarefa mecânica, hoje existe uma única máquina, mais rápida, mais precisa, mais eficiente, mais lucrativa.

As pessoas substituídas pelas máquinas não poderiam voltar para o campo. Lá a tecnologia já havia se desenvolvido há mais tempo. Plantadeiras, colheitadeiras, pesticidas. Para a produção agrícola em grande escala, quanto menos gente melhor. Na cidade foi mais fácil a diversificação de serviços, rearranjando a tecnologia e criando novas necessidades, mesmo sem ter sanado as mais antigas.

Fica cada vez mais gritante um efeito colateral do desenvolvimento desde a revolução industrial. As cidades, cada vez mais poluídas, abrigam uma infinidade de subempregos. Ainda que a taxa de desemprego não esteja alta, existe demanda o suficiente para que pessoas sejam mal pagas para pendurar uma placa de anúncio de novos apartamentos no pescoço e ficarem paradas em algum cruzamento movimentado.

No campo, economicamente, está tudo perfeito. Gastos cada vez menores e lucros cada vez maiores. Para aumenta-los ainda mais reduzimos as áreas de mata nativa, desenvolvemos transgênicos e se for preciso o governo ainda subsidia a produção, concentrando fortunas nas mãos de pouquíssimos latifundiários.

Poucos se arriscam a negar que do ponto de vista ambiental o desenvolvimento industrial e econômico foram desastrosos. O aquecimento global, as chuvas irregulares, níveis de poluição alarmantes, presença de agrotóxicos e metais pesados em lençóis freáticos, etc. Uma infinidade de fatores que levam alguns cientistas a afirmarem que não há mais solução e que os recursos naturais estão fadados a acabarem.

Mesmo com o clima do planeta cada vez mais maluco, há quem insista em priorizar o desenvolvimento econômico. Essa mesma economia que reúne nas mãos das 80 pessoas mais ricas do mundo o equivalente a toda renda dos 50% mais pobres (3,5 bilhões de pessoas).

Por mais benevolente que seja o olhar, só é possível considerar algum sucesso no modelo atual se abstrairmos uma quantidade estratosférica de fatores. E se as terras fossem minimamente repartidas, passassem a empregar a massa de mão-de-obra dispensada nas cidades para uma produção agrícola mais saudável, com menos agrotóxicos e sem transgênicos?

Os problemas do mundo não acabariam, mas essa medida reduziria a concentração de renda insana citada acima, empregaria muito mais gente e reduziria o preço dos alimentos ditos “orgânicos”. Diminuiria o impacto ambiental e seria um passo em direção a um estilo de vida mais natural – aquele que a humanidade cultivou por milênios, sem ameaça ao planeta ou de auto extinção. Mas isso já é conversa de comunista. Melhor chamar os militares para que eles evitem qualquer mudança no modelo atual.