segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Neguinho como eu, como você


Neguinho não lê, neguinho não vê, não crê, pra quê?
Neguinho nem quer saber
O que afinal define a vida de neguinho

Neguinho compra o jornal, neguinho fura o sinal
Nem bem nem mal, prazer
Votou, chorou, gozou: o que importa, neguinho?

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se nego pensa que é difícil, fácil, tocar bem esse país
Só pensa em se dar bem - neguinho também se acha
Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro, um GPS
E acha que é feliz
Neguinho também só quer saber de filme em shopping

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se o mar do Rio tá gelado
Só se vê neguinho entrar e sair correndo azul
Já na Bahia nego fica den'dum útero
Neguinho vai pra Europa, States, Disney
E volta cheio de si
Neguinho cata lixo no Jardim Gramacho

Neguinho quer justiça e harmonia
Para se possível todo mundo
Mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo
Nego abre banco, igreja, sauna, escola
Nego abre os braços e a voz
Talvez seja sua vez:
Neguinho que eu falo é nós

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho
(Caetano/ Gal Costa)

nesta semana, um médico me perguntou: "você acha que bebe demais?". e eu respondi: "uma pessoa que bebe nunca acha que bebe demais". o médico, silenciado, olhou para mim. parecia surpreso. acho que não esperava por minha resposta. não espera uma mulher dizer que suas dores no estômago podem estar relacionadas aos seus maus hábitos que se traduzem em cerveja e coca-cola.

o mundo está muito chato. 
eu defendo muitas bandeiras. eu não aceito que dividam o mundo em azul e cor de rosa. eu protesto contra o preconceito aos gays aos negros aos pobres aos nordestinos. isso, das minorias. e desde sempre. muito antes de ser moda. assombrei minha família amada quando disse em alto e bom som que não via problema algum em ser gay. e quando me disseram que, além de gay, havia a desconfiança da promiscuidade, eu disse apenas que estava no script. e quem pode negar que é maravilhoso? muito antes de ser politicamente correto. porque não gosto de nada do "politicamente correto" e suas demandas. nunca fumei --- mas me assombra o mundo que varreu os fumantes para as ruas --- entregues à própria sorte da discriminação. Tatupai é fumante. e vez ou outra me preocupo. não quero que ele morra de câncer. mas não querer que seu amor morra é do humano. penso.

o "meu problema" é que penso que passamos por uma higienização do presente que por vezes me dá engulhos. estamos vivendo um revival mal feito dos movimentos sociais dos estados unidos. agora, tudo precisa ter uma ordem bem demarcada. como se, nordestina, precisasse proferir meu ódio aos que odeiam os nordestinos, mas proferir de tal modo que pareça que apenas reivindico o lugar que nunca tive. mas que lugar de reivindicação é este? não é o meu.

odeio a palavra bullying. a porra da palavra já prova nossa submissão às ideias vindas não apenas de fora, mas em forma de onda. quando poeminha foi ignorado por seus coleguinhas por gostar de pôneis, não pensei em bullying. pensei que é do viver em grupo. e vi nisso a oportunidade de explicar a ele que o mundo, às vezes, é bem feio. e que está ao nosso alcance não sucumbirmos. ser feios como os que julgamos ser feios é a pior das posições. acredito nisso. hoje nos impelem a nos afastar de tudo que não tenha uma bandeira efetiva e visível. estou fora. falei para o Poeminha: -------

não quero o mundo no seu contrário. quero o suplemento. quero amar os indígenas e os não indígenas. o branquinho e o negão. ou o neguinho. quero amar as bichas. mas não como categoria.  não quero nada em categorias. e quero poder dizer que, se defendo bandeiras, me cansam os olhares todos voltados para as bandeiras. tenho visto muitos enganos --- e todos passam por este olhar "preservacionista" - amam os indígenas e os negros paramentados de indígenas e negros. quero ver amar o neguinho e o índio com seus cordões de ouro e prata e seus carrões f1000qualquercoisa. pensam num mundo estático, como se todos não estivéssemos neste movimento errante de esquecermos as próprias tradições.

como ser nordestina. ser nordestina é uma desgraça. cearense, então. o cearense não tem o orgulho do pernambucano, do baiano, do paraibano. o orgulho do cearense é ter sobrevivido a grande fome. somos um povo acanhado. não temos o frevo nem o axé. vivemos do forró - que só teve seu período áureo com luiz gonzaga e com o tal forró universitário. mas temos tanto! e foi este tanto que esteve sempre comigo --- o que me permitiu estar aquém ou além da estereotipia, a depender do momento.

em paris fui arrastada pelo meu supervisor de doutorado que ao descobrir aparentemente surpreso que eu havia lido a trilogia de beckett saiu me apresentando como a brasileira que leu... e não esbocei nenhuma reação, a não ser um sorriso amarelo de quem mal sabia falar a língua daqueles que me passaram a ver como exceção. mas me vingo até hoje ao transformar meu supervisor na mesma estereotipia::: um francês idiota que não sabe que no Brasil se lê Beckett. o que quero dizer com isso é que todas essas classificações tornaram o mundo muito chato. entendo a história. indigno-me com a história. mas não. não estou a fim de fazer uma revisão da história a partir de uma higienização do presente. 

porque batalhar pelas diferenças não é o mesmo que querer transpor tudo ao seu contrário. não me alinharei nunca àqueles que nas passeatas defendem a volta à ditadura. essa gente classe média que não me representa. e defenderei até sempre um partido como o PT no poder --- falei ontem mesmo:::: "se vocês pensam que esta universidade existiria se um partido como o PT não estivesse no poder, é porque vocês não entendem nada de política". e vou na marcha das vadias, nas paradas gays. sou a favor das cotas. e meu filho não vai se beneficiar delas, porque ele não é neguinho para os padrões brasileiros e eu não vou ter coragem de mantê-lo na escola pública. mas não me peçam para fazer o jogo da substituição. não me peçam para cooperar na instituição de uma nova cultura --- que tenha como premissa o esquecimento das tantas culturas.

um exemplo::: acho mais importante que o neguinho brasileiro leia o branquinho guimarães rosa e o sarará graciliano ramos do que leia os branquinhos agualusa e mia couto. e acharia diferente se o povo soubesse fazer de outro jeito::: colocar tudo junto e misturado. mas só vejo o contrário. uma parte de professores totalmente envergonhada, e outra indignada, quando se fala em ensino da literatura brasileira, da arte brasileira. agora, só pode ser literatura das minorias, arte das minorias. como se nós mesmos não fôssemos uma porra de país que mal sabe o que seja literatura, o que seja arte. que mal sabe quem foi graciliano ramos e guimarães rosa, quem foi hélio oiticica. mas não::: preferem que agora se saiba quem é mia couto e agualusa (incríveis, sem dúvida, mas quem conseguir me provar que a prosa de agualusa vale um dedo da de rosa, juro, como eu digo::: não corto o dedo do meu filho, mas corto o meu). porque estou falando de deslumbre: do momento ímpar de ler grande sertão: veredas e ficar chapada a vida toda a cada vez que lembra. e eu li barroco tropical, do branquinho agualusa, e vi muito mais pretensão do que qualquer outra coisa. fico cansada, juro. e não é nacionalismo. é política de leitura. defendo que se estude literatura brasileira porque somos brasileiros. e também norte-americana, francesa, italiana, africana, japonesa, porque somos brasileiros e precisamos abrir o olho para o resto do mundo. não para um certo mundo. mas para o mundo todo. me ajoelho diante de mia couto como me ajoelho diante de beckett. é mentira ---- me ajoelho mais diante de beckett de dostoiévski de kafka. e que se dane o fato de eles terem nascido na europa branquinha. são neguinhos como eu. 

quero estar no entremeio. por que diabos não posso? por que diabos não posso ser uma mulher que desconfia que sua dor no estômago é do excesso de cerveja e coca-cola que ingere? ou não. e não sou feminista nem defendo uma masculinização, uma europeização do mundo. sou mulher. tenho uma independência emocional que cultivo com orgulho e dedicação. e conheço poucas pessoas que a tem. preciso ser amada por poucas pessoas. e mal me mexo quando me descubro não amada. mas sou mulherzinha também. cuido da casa. lavo a roupa da casa. passo a roupa da casa --- isso significa que quando o tatupai está aqui eu cuido dele. eu dobro as suas camisas e coloco-as na posição de usar no guarda-roupa. mas Poeminha, quando tinha quatro anos, disse espantado: "Papai, mulher cozinha!", porque nunca tinha me visto cozinhar. porque é isso, né? a porra da diferença é isto. é branquinho e neguinho tudo junto e misturado. é tudo cor. é tudo gente. é tudo sentir na pele. e para mim, esta deve ser a política.

(hoje recebi um abraço muito apertado. da moça que fez uns vinte tipos de raios-x do meu corpo. junto com o abraço, ela me disse que desejava que eu ficasse boa. disse que acreditava em Deus, que Deus era a cura. falou abraçada a mim. e eu a abracei fortemente. agradeci com uma grande alegria no coração. não era ali que teria medo do abraço de uma desconhecida. mas não menti::: disse que não era religiosa. mas que agradecia enormemente aquele abraço e aquele desejo que eu melhorasse. e por fim, fiz a reverência de agradecimento: curvei os meus joelhos e disse: "obrigada!". curvei-me àquele desejo diante da diferença. ela tampouco titubeou. abraçou-me mais uma vez).
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(repliquei esta postagem, que já havia publicado em meu blog, não apenas por falta de tempo de escrever, mas por achar que essas discussões devem ser feitas continuamente)