quinta-feira, 7 de abril de 2016

Caio não era uma pessoa

Caio não era uma pessoa. Depois de uma manhã repleta de sonhos, a tarde veio como um soco na cara. Não, as coisas não iam tão bem como os dados laboratoriais mostravam em seus resultados. Mal tivemos tempo de comemorar aquela pequena grande vitória, parte integrante de uma batalha colossal e imprevisível. 

Imprevisível. Havíamos desconsiderado este elemento surpresa depois de trinta dias de mar calmo. Mas, como diz o ditado, um bom marinheiro só se faz com tempestade e, sendo assim, Oyá na frente, Eparrei, mãezinha! E nos empresta a sua força nesta travessia.

A noite foi longa. Sua face estava pálida, os olhos vacilavam. Ela perguntava durante os quilômetros que nos alargavam a chegada: “Você está comigo?”. E Ele respondia que sim. A ideia do ponto de chegada representar o fim da tormenta e início da boa nova foi se dissolvendo ao poucos, até desaguar por completo sobre nossas cabeças. Não havia muito o que ser feito ali. A noite passou lentamente, acompanhada por cigarros e um café ruim, fundamentais para atravessar aquele final de junho e os ecos de passos apressados que preenchiam o corredor.

Voltamos ao ponto de saída do dia anterior. Enquanto tentava descansar e esquecer aquela noite, chegou até a mim vestígios de uma conversa: “Vamos ao Caio?”. Caio? Quem seria ele? “Acredito que será melhor. Vamos arrumar uma muda de roupa e seguir viagem”. Caio? Eu não o conhecia. Nos receberia em sua casa por alguns dias? Teria ele a cura? Seria ele a cura?

Caio não era uma pessoa. Isso eu só descobriria exatos 400 quilômetros depois. O trajeto, longo por sua condição geográfica, não foi tão lento como a ansiedade havia, copiosamente, sugerido. Apesar de, tudo ia bem, em breve estaríamos no Caio, o que parecia uma grande solução ou, ao menos, um grande motivo de fé. Um pouco mais de três horas depois começamos a avistar grandes edifícios e pontinhos alaranjados iluminando dezenas, centenas, milhares de ruas. Caio morava em uma capital. Seria divertido passear por ali alguns dias em um contexto diferente, pensei.

Caio morava em uma avenida importante, chamada Dr. Arnaldo. Isto ninguém me falou, observei pela imponência de algumas construções e pelo movimento naquele horário da noite. Já passava das nove horas. Em frente ao edifício do Caio havia bancas de flores. Era possível observar flores de todas as cores e espécies, e, atrás das bancas, o topo de alguns monumentos antigos, resguardados por um longo muro. Ao olhar estes monumentos um frio visceral percorreu meu corpo. Que piada de mau gosto haver um cemitério logo ali, tão perto do nosso destino. Respirei fundo e o carro estacionou em frente ao edifício.

Havia, no piso baixo, três amplas salas. Todas elas superlotadas. Em algumas partes era possível encontrar famílias inteiras, com olhos marejados de tristeza e cansaço. Ele e Ela já sabiam qual dessas salas levavam até o Caio e me limitei a segui-los, sem fazer perguntas. Estávamos todos apreensivos, cada um com seus sigilosos motivos que não deveriam ser compartilhados.

Caio não era uma pessoa. Na terceira sala, ali estava ele: C.A.I.O. Uma sigla. Não era um curandeiro, não era um amigo. Era o Centro de Atendimento de Intercorrências Oncológicas. 
C.A.I.O.
Havia neste centro muita coisa: pessoas, medo, dor. Havia muita espera(nça).