sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Segredo

Roberto acordou resoluto. Naquela manhã revelaria tudo. 

Aquele segredo já o incomodava e logo mais seus pais descobririam por outras fontes. E quem é que garante que já não desconfiavam? As provas estavam por todas as partes. Roberto nunca foi bom em esconder nada, muito menos uma coisas daquelas. 

Encontrou a mãe na mesa do café. Começaria por ela. O pai saberia pela noite quando Roberto já estivesse mais seguro. Supunha.

- Bom dia, mãe. - disse sentando-se em frente a uma xícara fumegante e de um pão com manteiga. A mãe estava de costas lavando louça.
- Bom dia, querido. O leite já está quente.
- Obrigado. - disse tentando controlar a ansiedade da voz - Mãe...
- Oi..
- Preciso falar com a senhora..
- Pode dizer.
- É... é... um pouco sério, mãe. A senhora pode se sentar aqui... aqui comigo.

A mãe olhou pra trás rapidamente e viu Roberto lívido, sem saber o que fazer com as mãos.

- Oxi, menino. O que aconteceu? Viu assombração, foi? - disse a mãe, enxugando as mãos e pondo-se sentada em frente ao filho.
- Preciso te contar uma coisa, mãe. Um segredo... um segredo que eu não consigo mais guardar...
- Desembucha, menino! Conta logo! Quer me matar do coração?!
- Eu tenho um pouco de medo de como a senhora vai reagir, mãe... eu não sei direito como isso começou... talvez desde sempre, não sei... mas somente agora eu percebi... eu percebi que eu não consigo ser de outro jeito...
- Meu Deus, menino! Desembucha logo! Meu coração está saindo pela boca! 
- Mãe... eu escrevo!
- O quê?!
- Sim, mãe. Eu escrevo. Contos, romances, novelas... e até poesia...
- Poesia?!
- Sim, mãe, poesia. Ontem mesmo eu escrevi um soneto antes de dormir.
- Não! Não! Não! 
- Tá vendo, mãe! Eu sabia que a senhora não ia receber bem a notícia!
- E tem como ser diferente? Você é meu único filho, Roberto! Meu único filho escrevendo sonetos! - disse a mãe, já sem conseguir esconder as lágrimas.
- Não tenho como controlar, mãe. Quando menos imagino, a vontade vem e lá estou eu escrevendo de novo...
- Justo agora que você arrumou aqueles amigos, aqueles que você encontra todo sábado pra ir ao clube...
- ...de leitura.
- O quê?! - exasperou-se a mãe.
- Clube de leitura. Nos reunimos aos sábados pra discutir literatura... em grupo - confessou Roberto baixando a cabeça.
- É bem pior do que eu pensava... mas domingo... domingo você falou que ia encontrá-los para ir a uma festa, não falou?
- Era um sarau, mãe. Eu menti. Fomos a um sarau... passamos a noite lendo poesia em voz alta...
- Fala isso baixo, menino! Eu exijo respeito!
- Mas mãe...
- Chega! Suma da minha frente! Vou ligar agora mesmo pro seu pai. E vá logo procurando outro lugar pra morar. Nós não sustentaremos um vagabundo metido a poeta!
- Mãe...
- Chega! Filho meu não...
- ...Eu menti!
- O que disse?
- Sim, é mentira essa história toda de ser escritor. A verdade é que matei um homem. Era esse o segredo que estava escondendo esse tempo todo.
- É mesmo?
- Sim, mãe. Sou um criminoso.

A mãe abraçou Roberto sorrindo.

- Que alivio, filho, que alivio. Seu pai conhece um advogado ótimo. Vamos, vamos terminar o café... você quase me matou do coração...