quarta-feira, 1 de junho de 2016

Só existe justiça após o fim do expediente.

Afrouxar a gravata era sempre o primeiro gesto. Acabar com a sensação de sufocamento, com a coleira simbólica, com essa merda que me marca como propriedade daquele filhodumaputa que eu chamo de patrão. Respiro e olho ao redor. As opções são as de toda sexta: boteco com os colegas, fumar um baseado com a moçadinha da faculdade ou puteiro com os caras da vila. Que se foda, vai ser puteiro. 
 -Alô, Juquinha? Casa das primas vai rolar hoje mesmo?
 - Faaaaaaaaaaaaaaaaala banana! De boas? Vai rolar, e vai rolar pra caralho! Mó cara que você não colava, tamos até emocionados. Cola aqui em casa que o Zé, o Danone e o Peroba já chegaram.

1h20 de busão e uma caminhada de 15 minutos depois e eu cheguei. Dá pra ouvir Matanza tocando alto da janela do Juquinha.
-Ô seu puto, abre a a porra da porta! -Grito lá pra dentro, sabendo que a Dona Genoveva deve estar dormindo há tempos, mas se a música não acordou, eu é que não acordo a véia. 

Aquele auê quando o Juca abre a porta. Abraço todos os brothers e a gente sobe pra começar o esquenta. Entre uma breja e outra, vem o papo.

-Ficou sabendo do Geraldo? Aquele grandão lá do pico dos churras?
-Manjo, Juca. Fiz o segundo ano com ele .
-Então, foi pego mamando rola dum bombado na Augusta. Encheram ele de porrada.
-Vixe. Que mancada , heim? Deixa o cara se pegar com quem quiser.
 -Ah, mano, se é na minha frente eu nem sei o que faço. 
 -Tá. Escuta, a gente vai ou não vai?-Tento apressar os caras, pra sair do assunto ruim. Eu tinha me esquecido de quanto eu mudei desde que entrei na faculdade. 
 -Vambora, cambada! O universitário quer foder umas piranhas.
Entramos no Opalão do Danone e rumamos pro "Tia Jebetiza"

O Tia Jebetiza não é um puteiro de classe, não parece com nada que tenha "fotô" no nome. É um salão judiado, com uns mastros de strip que ninguém usa, umas salinhas e biombos separados pros “serviços” em si, e um bar com balcão manchado, das antigas.
Aquela zoeira de sempre: a galera bebe, fala merda, mas raramente alguém da nossa turma vai pro “quartinho” com uma das moças.
Estava tudo muito bom, quando eu reparei num cara saindo de um quartinho. Camisa meio amassada, terno caro, óculos Rayban e pegada “topzera Vila Madá”. Putaqueopariu. Enzo, o filho do chefe.

-Caralho, Peroba. É o meu Gerente do trampo. E ele é filho do “seu Silva”.
- Vixe, Banana. Aí fodeu, heim? Quer vazar?- Perguntou o cara mais consciente do rolê.
-Vou dar um tempo e ver se ele não vai embora.-Repliquei, e abaixei a cabeça no balcão pra beber meio escondido.
 2 minutos depois, ouço uns gritos. Olho pro lado e o Enzo tá discutindo com o dono do cafofo, falando que “As putas dele não aguentam nada, e que é só dar uns tapinhas que elas param o serviço.Choram à toa.”
Aí eu vejo a Gisele saindo do quarto. Puta que o pariu. A Gisele, cara. Eu nem sabia que ela tinha virado puta. A gente chegou a ficar na época da escola, e ela ia bem em Matemática, até me passava cola. O rosto dela está roxo. O sangue escorre do supercílio. CARALHO! Eu já vi os caras baterem em putas antes, e até forçarem elas a fazer uns lances, mas nunca uma conhecida de fora daqui. 
-Olha aí a piranha chorona. Não conseguiu me fazer interromper a foda, -Diz o Enzo, com aquela certeza de que pode falar a merda que quiser.
A Gisele só se encolhe e geme. Eu penso no que fazer.
-Enzo. Cara, isso não foi legal. Pede desculpas pra moça.
Um urro irrompe dos lábios ensanguentados de Gisele. –DESCULPA? ESSE FILHO DA PUTA ME FODEU À FORÇA. ELE ME BATEU! DESCULPA? VÃO PRO INFERNO! “ERRE AS KORAKAS”!

Que diabos é essa coisa bizarra que ela disse no final? Que ...
O som de o trovão invade o Jebetiza. Duas figuras estranhas aparecem no meio da sala usando ..lençóis? Não, isso são togas. Mas que diabos?
-Quiporréessa?-Grita Enzo, desnorteado e visivelmente ainda bêbado.
-Calado, Mortal. Viemos aqui pois uma lei foi quebrada e um injustiça cometida. Sou Têmis e essa é Nemesis.–Diz uma das moças.
-E que caralhos vocês tão fazendo aqui? Sabem com quem ces tão falando? Eu sou o Enzo (sobrenome censurado)! Meu pai é o dono da GIGAEMPRESA DE CONSTRUÇÃO . Vocês duas são só umas piranhas feminazi que eu conheço esse tipo.
- Calado, eu disse. O Julgamento está concluído. É culpado de estupro, agressão e difamação, e isso apenas nesta data.  Qual é a sentença requisitada , mortal ?-A voz da criatura(Deusa?) se adocica quando ela fala com Gisele.
-Eu queria que ele nunca mais pudesse fazer isso com ninguém moça. Eu queria nunca mais ter de aturar uns merdas desses. Eu queria morrer.
- Você não precisa morrer para haver justiça. Ele e todos os cúmplices serão punidos de acordo.
-Cúmplices? Mas a gente não fez nada-Pergunto, em voz alta e trêmula.
 -Exatamente. Vocês nunca fazem nada. Vêem as mulheres sendo violentadas e se calam. Ouvem seus amigos se gabando de tal, e riem. Segundo meu desejo, estão todos condenados. –Disse a outra moça. Nemesis,acho.
-Moça, não adianta chamar a polícia. O Enzo é rico. Quem vai se foder é a gente. –Diz o Peroba, nervoso.
-Não precisaremos de polícia. Ela estende as mãos e todos somos transportados para um lugar com grades de ferro e colunas de mármore. Olho ao redor e penso:
-Ao menos eu não devo ter de ir trabalhar na segunda.
-A mulher de toga replica: não nos próximos 20 anos.