domingo, 29 de janeiro de 2017

não vadeia na política dos homens! não vadeia!

O ano começou pesado e pelo jeito a leveza anda passando longe, pelo menos por aqui na terra da banana. Mas como a gente não se entrega e sempre acredita no dia depois de amanhã, com aquela fé e esperança de que algo bom ainda está por vir, seguimos.

A quantidade de mulheres que foram vadiar pelas ruas com cartazes e gritos nesta semana, principalmente em Washington D/C foi o fôlego, a respiração, a vitamina D noturna que precisava para espantar o mar de desilusão.

Contemplá-las na vadiagem pelas ruas mesmo de longe e sem entender o que falavam é a evidência e certeza de que acreditar no dia seguinte é melhor que pensar no dia anterior que passou e deixou arestas do machismo na forma de desânimo, chateação e tristeza.

Também é a ratificação do não me calo diante do machismo seja na família ou em qualquer lugar.

O ano de 2016 do ponto de vista político foi terrível para as mulheres. Digamos que todos os anos são difíceis, mas na política em especial tivemos grandes derrotas.

Ler matérias e artigos nomeando Hillary Clinton como a candidata da guerra e Trump apenas como conservador com excesso de autoestima, mesmo sendo por meio de discursos: xenofóbico, machista, misógeno, fascista, ultraconservador, eurocêntrico, egocêntrico, primata,  boçal, antiquado e figura política das mais ridículas de todos os tempos foi no mínimo horrendo para não dizer o fim do mundo.

No mundo dos homens, pois afinal, trata-se do mundo dos homens e para os homens uma vez que os lugares de poder são ocupados quase que exclusivamente por homens, o registro histórico da humanidade nos ensina que as principais guerras (inclusive dos EUA)  foram proclamadas pela excelência e magnitude do poder de homens.

Sanders o candidato para presidente considerado progressista estava apoiando a candidata da guerra quando não tinha chance de vencer. A candidata da guerra estava disputando um cargo político no país considerado número um no sistema capitalista e portanto o senhor da guerra.


Daí ressurgiu aquela sagrada dúvida que toda gente de esquerda ou quem queira pensar sobre tem: de que adianta mudar alguém do cargo quando o sistema ou o conjunto da obra (normalmente econômico) determina as condições e decisões das opressões sejam de exploração, golpes ou guerras?

A candidata da guerra também foi acusada de ser mentirosa, de mentir muitíssimo em favor de uma política favorável a guerra. Mentir. Algo que os homens mais fazem na política, mentir, se tornou um peso quando se tratava de uma mulher ao disputar o cargo mais poderoso.

Mas se entrarmos no mérito se mentir é fazer ou é parte da política, também podemos questionar uma vez que a política sempre foi uma criação evidentemente dos homens e não das mulheres, pois a maioria seja na Grécia ou em qualquer pedaço de chão estava nos lares cuidando dos filhos (hoje família) ou do trabalho quando escravizada.

Não se trata de defender a estratégia da candidata da guerra de assumir que iria a guerra (algo que o boneco fascista apenas não admitiu mas que com certeza irá fazer), e que se diga estava sim alinhada à política dos EUA como todo e qualquer político que se propunha ao cargo, ou seja, capitalista, exploradora e centralizadora para garantir a posição de país número um durante décadas.

Obama embora quisesse ou pelo menos demonstrava querer não conseguiu se isentar de guerras, aliás, os historiadores podem informar qual o presidente dos EUA que menos declarou guerra, para não dar a impressão de que a loucura ou histeria pairou na cabeça da mulher aqui, o que não é difícil, uma vez que esse bicho é bipolar e sangra todo mês e não morre.

Para as mulheres fica a sensação de que política não é assunto para nos dedicarmos, não é algo que deve ser uma meta para a vida. Perder a eleição mesmo com porcentagem pequena para Trump é violência e opressão para a vida das mulheres e das futuras que existirão.

Até quando vamos nascermos crescermos e morrermos nas mesmas condições, sendo inferiorizadas por homens, por nos julgar incapazes de pensar a organização de uma cidade, estado, país e sociedade?

Ler os comentários e imaginar os risos de Putin e Trump sobre as mulheres, mesmo após a derrota estar consolidada reafirma que a política não é nosso lugar, pior  estão nos dizendo de uma forma um tanto debochada e escarnecedora aonde é que devemos estar: em qualquer lugar desde que servindo aos homens.

E mesmo quando se decide não servi-los, cabe ressaltar que as decisões dos homens nos impõem uma servidão que está além da nossa vontade e alinhada ao estado e sistema capitalista.

Nos hospitais quem são os cuidadores, se para enfermos, grávidas e acamados?

Nas prisões como visitas (mãe, irmã, esposa/união estável) quem é a maioria?

Nas guerras quem supre o lar e quem é responsável pelo cuidado com os filhos?

Nas epidemias quem é cuidadora?

No dia a dia trabalhando e fazendo o serviço doméstico, quem é unanimidade?

Aponte um lugar que esta minoria que é maioria no mundo não esteja?

Não se trata de fazer o discurso do ódio aos homens, mesmo porque a maioria de nós tem pais, irmãos, genros, tios, primos, amores, amigos, colegas. O feminismo na sua plenitude trata do direito de igualdade (inclusive na política) entre nós, mas reconhecendo nossas diferenças. Feminismo não se propõe ao discurso do ódio aos homens, mas  enfrentamento dos privilégios machistas dos homens na sociedade.

Representação política importa e interessa. Naturalizar somente os homens na política reforça o sistema capitalista, racista, classista, homofóbico e machista que vivemos. Mundo e sistema dos quais apenas oito homens são bilionários, com perspectiva de nos próximos anos existir o primeiro homem com trilhões na conta.

Daqui alguns meses irá completar quase um ano do golpe político no Brasil. O golpe através do impeachment da presidenta Dilma está entre as perdas e naturalização da política de homens a serviço do sistema mais degradante e destruidor de vidas.

Notar que Temer é incapaz de produzir qualquer reação prometida seja o famigerado crescimento na economia ou a tal estabilidade política mesmo com golpe e rodeado de cuecas, com a grande mídia servindo de apoio é a prova convicta de golpe com machismo.

Golpes nos trabalhadores, pois as reformas (trabalhista, previdência, educação, saúde, cultura etc.) seguem o curso planejado com financiadores.

Golpe também nas mulheres.

As doces palavras, tais como incompetente, histérica, centralizadora, autoritária bem como os números apresentados em altos índices de desemprego todos os dias nas principais capas dos jornais e em gráficos nas TVs; ou a divulgação sobre a lama de corrupção com direito a estrelas e destaque jamais serão dele, serviram apenas para ela.

A única candidata a presidência eleita, reeleita e deposta pelo vice com um golpe institucional: político, jurídico e midiático serviu de chacota e discurso de ódio.  A única a ouvir em rede nacional ao vivo e a cores um sonoro: vai tomar no cu como forma de ofensa enquanto o "princeso" político foi apenas vaiado.

Fica a certeza de que política aqui no Brasil (e no mundo) não é para mulheres. Mesmo quando têm muitos diplomados/políticos/homens piores do que selvagens.