segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Memórias de um futuro brilhante

Ilustração: Julie Maroh
Naquela manhã o relógio despertara às seis e quinze. Como nos últimos dez anos, Tânia só sairia da cama às sete, mas aos poucos foi retroagindo o alarme e usando a função soneca. Por dez minutos. Vinte. Trinta. Até chegar aos atuais quarenta e cinco minutos. Dez cliques no botão de soneca de cinco em cinco minutos, que raramente eram intercalados por um cochilo. Tânia despertava logo no primeiro toque, por vezes até antes, e ficava lá, na cama. Em algumas manhãs criava pequenos desafios, como a cada toque do despertador mudar a posição na cama e permanecer imóvel nos cinco minutos seguintes. De bruços, lado direito, lado esquerdo. Decúbito ventral. Lembrava desse termo das aulas de biologia. Decúbito. De onde tiravam essas palavras?

Na tal manhã não estava disposta a jogos. Após a terceira soneca estava deitada de barriga para cima, olhando o teto, onde pouco antes de entrar na adolescência havia colado uma dezena de estrelinhas florescentes. Imaginou que com isso tinha a sensação de olhar o infinito. Que bobagem.

A memória difusa foi para o dia em que uma amiga viu as estrelas e disse que parecia a constelação de Áries. Não fazia ideia. Havia colado todas ao acaso, na ponta dos pés e quase caindo da cama. Áries. Que bobagem. Mal sabia qual era seu signo, mas não era de Áries. Peixes, talvez Aquário. Tinha alguma coisa com água. Escorpião! Isso!

As estrelas do teto haviam sido dadas de presente pela professora, uma lembrança daquele ano que chegava ao fim. E lá estava a dezena de estrelas cintilando em verde florescente. Hoje amareladas, elas já quase não brilhavam.

Na época em que ganhou as estrelas Tânia era a aluna modelo. A dona das notas mais altas, que fingia modéstia para despistar o orgulho de ser a primeira da classe por anos seguidos. Hoje passava as sonecas do despertador. Engraçado, os mesmos cinco minutos às vezes passavam num piscar de olhos, outras vezes demoravam horas. Ela precisava conter a ansiedade de olhar para ter certeza de que não havia desligado o despertador sem querer.

A primeira da classe. Imaginava então um futuro bem distinto daquela rotina de ficar acordada, olhando para o teto, por algum motivo esperando o horário de sair da cama. Ao revisitar sua memória sentiu como se tivesse saudade do futuro. Que bobagem. Como alguém pode ter saudade do futuro?

Podendo ou não, era o que ela sentia. Lembrou e sentiu falta daquele futuro que não chegou. Que de brilhante foi ficando fosco, opaco, tal qual as pequenas estrelas que se esforçavam para resistir ao tempo e não apagar de uma vez.

Precisava comprar granola. Tinha que ter feito isso ontem, antes de ir para casa, mas acabou esquecendo. O jeito era improvisar alguma coisa para comer e não se esquecer de passar no mercado depois do trabalho.

Não era a primeira vez que tentava lembrar em que ponto seu futuro desandou. Mas não encontrava nada específico. Buscava algum cruzamento mal sinalizado, uma conversão errada, um retorno perdido. A memória lhe trazia tanta falta de opção que sempre terminava com a sensação de que seguira por uma trilha estreita em meio à mata fechada durante toda sua vida. Uma trilha com placas que indicavam seu futuro brilhante, mas que conduzira para sua cama, ao lado de um criado-mudo que dava suporte ao despertador, logo abaixo da dezena de estrelas.

A granola. Não podia se esquecer da granola. Ela gostava de granola.

Último toque do dia. Sete horas em ponto. Hora de parar de enrolar e seguir a vida. Ainda devia ter um restinho de Nescau vencido na cozinha, dava para quebrar o galho até amanhã. Um café da manhã que resgatava a memória de quando era a primeira da classe. Nescau. Tinha abandonado o achocolatado há muito tempo. Vai ver que foi isso que desandou seu futuro brilhante.