quinta-feira, 20 de abril de 2017

Um post sem pauta

O dia 19 avança e eu ainda não sei sobre o que escrever. Meu texto sai todo dia 20, só um por mês, mas contrariando minha promessa de ano novo, mais uma vez chego na véspera ainda sem assunto, diante de uma vasta página em branco que sequer tem um número pré-estabelecido de caracteres a serem preenchidos.

Eu não poderia alegar falta de tempo. Se tivesse escrito uma mísera linha por dia teria chegado hoje com um texto razoável para ser publicado. Mas por incrível que pareça, a correria está pesando.

Mal publiquei o texto do mês passado e um escândalo abala a pecuária do país. Não me refiro à lista de empresas que mantêm empregados em regime análogo ao da escravidão. O ministro do trabalho havia barrado a divulgação da lista e eu ainda não tinha notado que boa parte dela é formada por ruralistas.

Me refiro ao papelão dos frigoríficos comprando fiscais. Levei um bom tempo para entender tudo isso. Pessoas chocadas com fiscais comprados no Brasil, com o uso de materiais estranhos na carne ultra processada, para espanto geral a salsicha tinha até carne.

Passado o susto de desconfiar que a mortadela pode não ser algo tão saudável - começo a compreender os coxinhas, esses visionários - começou a discussão sobre a necessidade de tanto alarde por parte da PF. Não é um prato feito no qual estava a famigerada carne, mas a Polícia Federal, que teria tratado um assunto pontual como se fosse um problema generalizado.

Realmente a PF fazer um grande escândalo midiático para algo que poderia ser restrito é inadmissível. Nesse ritmo é provável que logo façam uma condução coercitiva desnecessária, a ser transmitida ao vivo por televisões que misteriosamente já sabiam da ação e acompanharão o coagido em questão de seu apartamento até o aeroporto para o depoimento.

E se o abuso vem da Polícia, quem poderá nos defender? Talvez correr da PF para a PM. Pelo menos essa foi minha primeira ideia, mas no dia seguinte descobri que esse ano a PM já matou mais pessoas que os criminosos. O placar inglório estava 60 x 50. Não é de hoje que eu ouço por aí que os bandidos estão soltos e o cidadão está preso em casa. Vai ver que é isso. Teve até flagra da execução de dois civis desarmados e baleados.

Tanta coisa insana que tudo o que foi divulgado no tradicional primeiro de abril pareceu plausível! Li até que aprovaram a tal lei da terceirização, imagine! Levou uns dias para que eu aceitasse isso como verdade e ainda desconfio que foi uma mentira que, de tanto ser repetida, passou a ser aceita como verdadeira.

Mas chega de problema. Preciso escrever meu texto. Futebol! Brasil é o primeiro país classificado para a copa da Rússia, como nos velhos tempos, e o mundo só fala disso. Porém um olhar mais atencioso denunciou que o destaque para a terra dos czares não era por isso e sim por mais um atentado.

Fiquei tentado. Posso escrever sobre isso. Atentados são a coqueluche do momento, ou seja, matando pessoas sem remédio ou vacina. Não deu tempo. Parece que o senhor laranja resolveu acabar com os atentados bombardeando o mundo. Daí foi tomahawk para um lado, mãe de todas as bombas para o outro, porta-aviões espalhados como quem joga War e para quem até outro dia dizia que o país estava afundando, até que apareceu bastante dinheiro a ser explodido.

No meio de todo esse caos, eis que surge um “Zé da Globo” querendo por em prática a fama de galã para assediar uma funcionária. Fico pensando o que não acontecia há uns trinta anos, sem internet, com o movimento feminista menos articulado e com os tais galãs em alta. Assédios padrão Globo de qualidade.

Minha última cartada. Passar o feriado de páscoa em meio aos ovos, pensando no tema do texto, afinal restava menos de uma semana. Corri para o supermercado e pelo preço fiquei na dúvida se eram ovos de páscoa ou ovas de caviar. “Mas que chocolatinho amargo, hein?”, brinquei com o vendedor, que não entendeu e respondeu mecanicamente “Não, senhor, esse é ao leite, o de chocolate amargo é mais caro.”

Passei o feriado mais perdido que político delatado pela Odebrecht, no que ficou para a história como o maior esquema de caguetagem do mundo. Dá para imaginar dono de empresa dizendo que político pediu ‘ajuda’? Daqui a pouco vai ter candidato à prefeitura de São Paulo dizendo abertamente que vai governar com a ‘ajuda’ do setor privado e será eleito no primeiro turno.

Quer saber? Desisto. Estou travado, sem inspiração, não tenho nada para escrever. E pensar que o sujeito do Acre escreveu não sei quantos livros nas paredes! Eu aqui, sem conseguir um mísero post. Pelo menos entendo o sumiço do rapaz. O mundo anda convidativo para um sumiço. Esse mês não tenho texto, quem sabe no próximo...