sexta-feira, 12 de maio de 2017

Insistir, persistir, ir......


No meio das dúvidas e incertezas, no meio do mar revolto que às vezes é minha vida, fico na espera, de vez em quando silenciosa, nem sempre barulhenta ou constante.

E desde pequena misturo palavras e seus significados. Meu pai adorava dicionários e sempre me corrigia quando eu repetia uma palavra, me dizia que poderia usar outras dez para dizer a mesma coisa. Mas sou virginiana, apegada as coisas, grudada em palavras que descrevem o que sinto ou deixo de sentir.

E até hoje, mesmo desmontando os dicionários do mundo, me perco entre ''insistir e persistir''.

Não são a mesma coisa, não significam a mesma coisa e ainda são divididos por explicações espirituais e conceitos divinos. Insistir não é bom, é coisa para gente teimosa, que perde seu tempo, mas persistir é divino, ação dos valentes, corajosos e que tem certeza da recompensa de Deus, persistir aparece tantas vezes na Bíblia que é quase um mantra, persistir é sinônimo de espírito forte, que não desiste diante das dificuldades, insistir é atitude de gente burra.

Mas minha vida se divide entre essas duas palavras e arrasta minha alma pelo chão, até quando insistir e por quê persistir em algo?

Porque a recompensa vai chegar. 
Bom, isso é teoria, não é fato.

E se estou persistindo em algo errado ou insistindo no lado equivocado?


Já me disseram que a alma avisa, mas não conhecem a minha, cheia de questões, minha alma é como um departamento de trânsito de uma cidade enorme, dividida em setores, cheia de papéis, de tramites burocráticos e cada vez que entro lá dentro me perco, nunca sei onde estão os departamentos que procuro. Se chegou algum aviso sobre o que devo insistir ou persistir, está parado em alguma mesa, perdido no meio da burocracia que me ocupa por inteiro.

E sem respostas me devoro por dentro e por fora, procuro sinais em Júpiter que se aproxima da lua, no chão que piso e nos desenhos que vejo nas nuvens.

E não é de agora que a falta de avisos e sinais sobre o que devo ou não persistir me persegue, quando eu era pequena minha abuelita contava a história de um casal e eu sempre me perguntava, poxa, por quê Deus não mandou um sinal para eles?

Esse casal era amigo da minha abuelita e logo depois de se casaram decidiram alugar um apartamento em uma área um pouco afastada e perigosa, a ideia era morar ali até economizarem para comprarem sua casa. O apartamento era antigo, grande, espaçoso e iluminado.

A moça contou que assim que entrou no apartamento sentiu uma energia diferente, teve a certeza de que ali dentro tinha alguma coisa que mudaria sua vida, mas era o começo de uma nova etapa, estava casada e não pensou mais no assunto.

Quando eles se mudaram o apartamento só tinha sido limpo, não tinha nada além dos armários e as peças do banheiro, estava completamente vazio.

Ficaram ali durante dez anos e parece que foram muito felizes, mas depois desse tempo resolveram que era melhor comprar sua casa e começaram a procurar onde morar, queriam sair dali porque era um bairro perigoso, os parentes e amigos não gostavam de ir ao apartamento, apesar dele ser espaçoso e bonito.

Acharam uma casa e deram a entrada, era um casal simples, com dois empregos estáveis, mas sem grandes recursos. E a moça contou a minha abuelita que assim que começou a arrumar as caixas da mudança e as malas voltou a ter a sensação estranha, sentia que havia alguma coisa ali no apartamento que não poderia ser abandonada. Já tinham sido muitos anos lá dentro e mesmo sendo alugado o casal tinha feito algumas melhorias, estavam apegados ao lugar.

Foram tantas as dúvidas da esposa que o marido procurou o proprietário e perguntou se ele queria vender o apartamento, fizeram uma proposta e foi aceita.

Mas a família do casal entrou no meio, para quê viver em um lugar perigoso, e se eles um dia tivessem filhos? O apartamento era lindo, mas não tinha garagem, era antigo, cheio de problemas, cercado por ruas abandonadas e longe do centro.

E não era barato, pelo tamanho o preço era um pouco alto.

O marido resolveu esquecer a proposta, achou que seriam mais felizes em outra casa, perto da família e longe de um lugar desses, mas a esposa resistia e enrolava para sair dali, dizendo que sentia que alguma coisa a puxava.

Foi tanta a insistência que chamaram uma médium, para saber se a moça tinha algum encosto grudado, fizeram uma sessão e não aconteceu nada, então descartaram a ideia de que tinha algo no apartamento.

A moça acabou indo ao psicólogo e concluiu que como era filha de vendedor e tinha se mudado muito durante a infância talvez desenvolveu um trauma secreto e resistia em se mudar mais uma vez.

E era tanto o sofrimento dela que a mudança foi cancelada várias vezes, deram entrada na casa, mas não se mudavam, até que o marido não aguentou mais e disse a esposa que não poderiam mais pagar o aluguel do apartamento e a prestação da casa nova ao mesmo tempo.

Minha abuelita dizia que o casal era muito cuidadoso com o dinheiro, vinha de muita pobreza, do interior do interior, gente que passou muita fome, que ia de um lado a outro tentando melhorar a vida, até que conseguiram estudar um pouco e entraram em empregos estáveis.

A esposa insistia na sensação, tinha alguma coisa no apartamento que mudaria sua vida, mas o marido dizia que isso era apenas o apego, tinham sido felizes e a alma humana é assim, resiste em abandonar os lugares onde se sentiu bem.

Eles saíram, mas ela jurou que voltaria e compraria o apartamento, pelo menos até saber porque se sentia tão ligada a ele.

Meses depois ficou sabendo que um casal comprou o apartamento, mas pensou que na hora que tivesse dinheiro iria negociar com eles.

Se passaram alguns anos e ela não esquecia o apartamento. 
Um dia resolveu voltar, tocou a campainha, mas ninguém atendeu, até que uma vizinha a reconheceu e chamou para conversar, contou uma história inacreditável.

O casal que comprou o apartamento se mudou em uma segunda-feira e tinha resolvido fazer uma reforma. As únicas peças originais eram os armários da cozinha, que estavam feitos de ferro e as peças do banheiro, a privada, a pia, a banheira e o tubo nas paredes que segurava as cortinas do chuveiro. Como era tudo feito de material nobre estavam bem conservadas, mas o casal resolveu arrancar tudo e ao puxarem o tubo do chuveiro perceberam que era muito pesado, pensaram que era de ferro sólido, mas ao arrancarem viram que estava cheio de moedas de ouro, alguém tinha escondido centenas e centenas de moedas de ouro por dentro do tubo que segurava a cortina do chuveiro.

Isso transformou o casal em milionários, cada moeda valia muito dinheiro, não apenas pelo ouro, mas porque eram moedas históricas, dessas que qualquer museu paga o que for para ter no seu acervo. Eles não tinham nem passado vinte e quatro horas no apartamento e já estavam ricos.

A mulher achou a história fantasiosa demais, o casal assim que se descobriu milionário fechou o apartamento e sumiu no mundo, então a mulher resolveu investigar a história do apartamento, queria ver se era possível mesmo que alguém tivesse escondido tantas moedas de ouro em um tubo.

Ela nunca conseguiu ir muito longe, o máximo que conseguiu saber foi que o proprietário do apartamento, o primeiro, tinha sido um homem que também construiu o prédio, era dono de tudo, morava sozinho, nunca se casou, nem teve herdeiros. E parece que sua família tinha encontrado um ''tesouro'' há mais de cem anos, mas nunca se confirmou essa história. A única hipótese é que ele tenha tido acesso as moedas de ouro e achou que o melhor lugar para guardar seria o tubo do chuveiro.

Eu era pequena quando me contavam essa história, não tinha a menor noção do que era ouro ou se tornar milionário da noite para o dia, mas sempre que escutava essa história me invadia uma sensação enorme de injustiça, poxa, por quê Deus não ajudou e iluminou a moça para que ela achasse essas moedas antes do casal? Desde que ela entrou no apartamento ela sentiu que tinha alguma coisa ali que mudaria sua vida e nada muda mais a vida da pessoa do que dinheiro.

Sempre senti muita revolta com essa história, minha abuelita diz que a moça nunca quis reformar o banheiro porque achava as peças originais lindas e precisaria de autorização para mudar, porque era inquilina. Mas caramba, penso o seguinte, por que ela um dia não escorregou no chuveiro, tentou se segurar no tubo, ele não aguentou o peso dela, então caí e ela recebe essa chuva de moedas?

Essa história ainda me atormenta, não é só o valor econômico, mas a injustiça em si, ela morou dez anos ali, sentindo que alguma coisa poderia mudar em sua vida, por que não se deu um sinal a ela?

E se ela tivesse insistido e comprado o apartamento? Talvez faria uma reforma no banheiro e encontraria as moedas.

Não sei, mas anos fiquei mais perturbada quando li o livro ''O alquimista'', de Paulo Coelho, a história de um rapaz que corre o mundo, quebra a cara e no fim volta a sua casa e encontra o tesouro debaixo de sua cama.

E sempre tem gente que vai dizer ''mas eram apenas moedas de ouro, dinheiro, quem se importa?''.
Não! Não era apenas isso, era uma mudança de vida, e por que o ouro não tem o mesmo respeito de outras coisas? Caramba, se a moça vinha de uma situação tão difícil, imagina o que teria sido para ela achar essas moedas?

Me pego pensando nessas moedas e em tudo que representam, até quando insistir, até quando persistir? E se existe esse ''tubo'' na vida das pessoas, aquele ouro que está acima de nossas cabeças, por quê nem sempre se recebe um sinal? E a metáfora de ficar no mesmo lugar, esperando que talvez um dia o tubo arrebente e caiam aos chão as moedas, ou largar tudo e cair no mundo? É melhor ficar ou se mexer?

Cansei dessas história de que ''o que é teu te encontra'', pois então tem o endereço errado, porque estou esperando!

Minha abuelita dizia que a moça não achou as moedas porque não eram para ela, mas caramba, ela ficou ali dez anos, sentindo a energia, sentindo a proximidade e no fim outros acharam em menos de vinte e quatro horas? 

A vida é assim! Meu irmão diz ''a vida não é justa, é o que é''.

Por que ela não sonhou com as moedas e saiu quebrando tudo? Posso me imaginar no lugar dela, se eu entro em um apartamento vazio como poderia adivinhar que existe uma fortuna no tubo do banheiro?

Esse é o ponto da vida! Nenhum de nós sabe onde está o tubo com as moedas, mas tantos persistimos e insistimos em tantas coisas, caramba, onde está o sinal?

Não sei se eu insisto e persisto no que penso fazer, não sei se quebro o chão até achar as moedas ou faço como a moça, abandono a sensação e começo outra coisa. Minha mãe se desespera quando minha alma começa a bater nas paredes e sempre me diz ''vai indo, depois você pensa no que fazer, o importante é não parar''.

Mas eu me pergunto, indo pra aonde?



Iara De Dupont