quinta-feira, 11 de junho de 2009

O cinza que não é feito de preto no branco

Ela não ia fechar os olhos para não ver e a boca para não dizer. Dos seus olhos fechados desceriam lágrimas, e da sua boca fechada nasceriam sussurros e palavras mudas. Ela queria saber o que dizer, e poder dizer.
Para ela o tempo que fazia era suficiente. Era inquietante. Era incontrolável. O tempo fazia da espera urgência.
Não convinha levantar escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro ia ficando claro.
Ela pensava muito nas coisas que aconteciam na sua vida. Planejava muito. Sonhava surpresas. No dia seguinte chovia água fria.
Ela sofria muito mais triste cada um dos acontecimentos que julgava despropositais. Por quê? Para quê? Já? Não entendia o tempo, as pessoas, e não entendê-las a afastava cada vez mais de si mesma.
Agora tentava trilhar o caminho inverso. Trilhava sozinha, com seus próprios pés, os caminhos dos seus sonhos. Tateando aos poucos, tropeçando aos montes. E os dias aconteciam bem diferentes daqueles que ela sempre havia planejado e sonhado.
Talvez ela soubesse de tudo isso antes mesmo de existir, dentro e fora dela.
Na aventura do sonho exposto à correnteza, só recolhia o gosto infinito das respostas que não se encontravam.
Nunca aprendeu a não ser, quando tudo o que precisava era viver. Viver agora, o presente, hoje, antes que passasse. Amanhã é dia de quem não vive, é dia de quem espera. E como é que ela poderia esperar se a vida não deixava de acontecer nem por um segundo?
Ela nunca soube.

Fragmentos de Guimarães Rosa, Mário Quintana, Juliana Morais, Cecília Meireles.