quarta-feira, 8 de julho de 2009

roxanne

era alguma hora entre a zero e a cinco, ou todas elas. o acorde do piano erradicou o silêncio da ampla e fria sala de tablados, meio escura, meio iluminada, de uma quase-luz vermelho alaranjada, anunciando e ordenando. por entre a névoa, uma silhueta indistinta atraiu para si os olhares que, embora esforçassem-se, não tinham certeza. as passadas largas e firmes imprimiam os 12 centímetros e 25 milímetros na madeira ao ritmo de sua pulsação. . . se tivesse sentimentos, aqueles próximos passos seriam sua personificação. mas era mais fria do que a sala, que lhe roubava o fôlego para alimentar suas paixões. fechou os olhos, inspirou penosamente o ar que a envolvia e se entregou. se tivesse sentimentos, poderia vomitar a água podre de seu estômago. mas o vômito não lhe era digno. cuspia, ao invés disto, o sangue em seus pulmões. quase sentia, agora ela quase os sentia emprestados, arrancados, roubados. por que meu coração chora? se tivesse voz, lançaria longe o grito preso em sua garganta. gritos, gemidos, desejo, gozo, raiva. sentimentos contra os quais não posso lutar. agora quase sentia entoados uníssonos em sua pele. escravizava(m)-se(-na) na tentativa de compreender, de abranger, de alcançar um momento da existência. você não tem que vestir este vestido esta noite. na tentativa de sentir roxanne, na tentativa de roxanne, tentativa de roxanne sentir, se perdeu.


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