quinta-feira, 9 de julho de 2009

Vou fugir pra Lisboa, casar com um garçom e viver numa casa com azulejos na parede.



A garoa do lado de fora só consigo perceber em um persistente pedaço do toldo, de onde caem duas gotas a cada tantos segundos. Daquelas gotas gordas que vão se acumulando até pesar o suficiente para desafiar a gravidade, a minha lei favorita da Física. A rota, brevíssima, só tem um rumo: a calçada de mosaico português. De repente me surpreendo com o tamanho da redundância. Que outro tipo de mosaico se espera encontrar em Lisboa?

Do lado de dentro o teto segue seco e um casal multinacional mantém uma conversa daquelas que parece ter começado muito tempo antes de pedir o cardápio do almoço, e que, mesmo com as xícaras de café vazias e o cinzeiro cheio, não deve nem ter chegado à metade. Ele fala inglês britânico. Ela responde em francês com sotaque, e às vezes eles trocam de idioma. Com o garçom, usam o português básico para turistas: "Eu querrro um café."

Eu quero comer muito, mas sei que só comerei o que devo. Demoro alguns eternos minutos subtraindo o que está na minha carteira pelas cifras no papel e imaginando se, no restaurante Fonte dos Passarinhos, me entenderiam se eu pedisse o combinado de peixe, sem o peixe.

O garçom me explica que a omeleta é suficiente para uma pessoa e a salada também é farta. Deve pensar que eu como igual passarinho, o que não só inspira qualquer piada sem graça sobre o nome do local, mas explicaria também a minha menos engraçada fome, agora que o prato se esvaziou.

Ali fora, a Penélope Cruz acaba de passar, em versão gigante, estampada nas laterais de um elétrico. Aqui dentro, o canal Sport-TV1 transmite ao vivo a brava resistência do Arsenal, agüentando a pressão do Tottenham Hotspur na casa do inimigo, com um homem a menos desde o final do primeiro tempo. A partida segue sem golos.

Meu garçom não tem tempo de ver o jogo. Está ocupando vestindo calça social preta e camisa de botões branca, com finas listras horizontais cinzas e verticais vermelhas. Dobrou as mangas para revelar metade do antebraço sem relógio. Dois botões se recusaram a entrar nas respectivas casas.

Quero me casar com ele. A pele clara da sua nuca ressalta algumas pintas desenhadas a esmo abaixo dos cabelos fartos e escuros. Pelo rosto, apenas três: duas no lado esquerdo do queixo, uma acima do osso da bochecha. Vizinha do nariz com canto fino e ponta larga e colega dos olhos negros que se espremem quando sorri. Desliza pelas mesas, aparece sem avisar pelo meu lado direito e exerce tanta autoridade sobre os copos na prateleira que eles parecem já saber onde ir, sem que precisem ser tocados.

Nosso casamento está ameaçado. Seus sonhos ultrapassam as paredes do Fonte de Passarinhos. Fala com o casal trilíngüe sobre a vontade de visitar Viena e Praga. Pede dicas sobre cervejas brasileiras e escuta que o ouvi verde e amarelo não é bom. Recebe outro cliente regular repetindo o popular “yes, we can” e contando histórias sobre sua viagem de alguns dias aos Estados Unidos. Endireita as costas para inspirar melhor enquanto se lembra dos detalhes. Apóia o peso do corpo na perna direita e olha para fora do restaurante, onde a chuva já foi e voltou três vezes e a goteira mantém o exato comportamento de alguns parágrafos atrás.

Talvez esse romance dê certo. Ele busca um horizonte com a mente, mas só vê uma praça onde várias pessoas esperam chegar o autocarro. No Jornal de Notícias, a “reportagem de domingo” ocupa as páginas 4 e 5 com depoimentos de portugueses emigrantes. Querem deixar a Península Ibérica para morar em Luanda, onde o salário é três vezes maior e há tanta procura que a lei angolana permite apenas uma cota de um terço de funcionários estrangeiros por empresa. O repórter avisa que só sobrevive à aventura quem abandona os “saudosismos e paternalismos” na velha metrópole e aceita “trabalhar muito” para enfrentar a concorrência de chineses e brasileiros. Estão redescobrindo o mundo, dessa vez sem caravelas.

Mas aqui na Fonte dos Passarinhos, onde meu marido fará carreira e eu comerei o pequeno almoço todos os domingos, não há crise. Não se fala em desemprego, embora eu entenda pouco o idioma falado, cheio de expressões mais próximas ao espanhol que ao tal brasileiro a que se referem constantemente quando citam a língua que eu falo.

Em cinco minutos completarei 24 horas vivendo em Portugal. Amanhã, serei novamente residente da Galiza. Mas tenho vontade de dizer ao garçom que já conheço muitos países do mundo e que ele pode ficar tranqüilo. Porque não há lugar melhor que esta cidade bagunçada, com calçadas em mosaico encravado no asfalto, edifícios antigos e descuidados, mas lindíssimos com suas fachadas cobertas de azulejos. De todas as cores e formas. Que, se ele quisesse, eu viveria aqui, em um desses edifícios. Comeria rabanada e pastel de nata, aprenderia a fazer pataniscas e passearia com ele pelo teleférico no Beiratejo, onde veríamos o entardecer mudar as cores do céu.