domingo, 9 de agosto de 2009

Minicapítulos aleatórios de uma biografia anarística

Um vascaíno me beijou a força na porta de uma boate de Belo Horizonte. Ele fingiu ser meu amigo o dia inteiro e, quando eu ia embora de uma festa onde fomos todos, não me deixou entrar no táxi com meus amigos enquanto eu não desse um beijo nele. Resisti por dez minutos, mas tive que ceder porque meus amigos, um menino e uma menina que observavam tudo, me apressavam para entrar no táxi. Agiram com tanta naturalidade que eu fui obrigada a disfarçar o enorme sentimento de humilhação que por muitos anos parecia infinito. Ele depois fez amizade com a minha irmã mais nova e nunca perdeu a oportunidade de ser falsamente educado e amigável comigo, só para ver como eu reagiria. Éramos todos estudantes de colégios jesuítas da região sudeste do Brasil e participávamos do "churrasco em BH", um evento anual que reunia os estudantes de primeiro, segundo e terceiro colegial que participavam dos retiros espirituais promovidos pelos colégios durante a Semana Santa.

Instituíram um belo dia que nas aulas de sábado os alunos do segundo colegial os estudantes poderiam ir ao colégio sem uniforme. Uma revolução dentro daquela quadra na Avenida Paulista cheia de grades cinzas, santos empoeirados e aula de matemática em pleno fim de semana. Minha tia que vive nos Estados Unidos tinha vindo ao Brasil e me trouxe um par de tênis Adidas. Era lindo. Azul marinho. E um número menor que o meu pé. Isso não me impediria de aparecer na primeira aula de matemática livre das calças de moletom e camisa polo com o meu novo tênis legitimamente importado. Vesti uma calça legging azul marinho, meias brancas de corrida, uma camisa da Polo Sport que outra tia me havia dado e, para domar o meu cabelo, fiz duas trancinhas na franja que crescia, uma em cada lado da cabeça. Eu, que tinha passado o primeiro colegial no Pueri Domus e sendo importunada diariamente por não ser rica, patricinha ou precisar pedir cola durante a prova, parecia um típico exemplar da espécie que freqüentava a Rua Jacurici, no Itaim. Só que na Rua Haddock Lobo, a coisa era diferente. Uma menina do terceiro colegial me viu na entrada e desatou a rir. No intervalo, desceu no meu andar para usar mais vezes a palavra "baiana". Chegou a hora do recreio e ela me pegou na escada para continuar a esbaldar-se com as minhas trancinhas. Eu não era tão eloqüente naquela época (vide episódio do vascaíno acima) e agüentei por um bom tempo até que me veio um estalo e eu disse: "escuta, cada um é livre para usar a roupa que quiser, ainda mais quando nem o uniforme é obrigatório aos sábados. que tal se você for passar o recreio com as suas amigas e me deixar em paz, porque eu não vou tirar essas tranças, não importa o que você diga, porque você não decide o que é feio e o que é bonito". Ela, que até era legal, tenho que dar o braço a torcer, disse: "pois é, tem razão, faz o que você quiser".

Quando tinha 17 anos, fui importunada pela Internet, durante dois anos, por um americano maior de idade. Ele queria que eu o enviasse uma foto minha nua para ele. Ele era o desenvolvedor de um programa de mensagem instantânea + games que vocês nunca ouviram falar. Ali se reunia um grupo de pessoas de tudo quanto era canto do planeta quando webcam era um trambolho caro e a minha internet fazia um barulho horrível durante vários segundos antes de abrir meu ICQ com a velocidade de uma lesma. Foi lá que eu desenvolvi meu inglês, o meu gosto pelo webdesign e pelo Tetrinet. Havia muitos canadenses, eu estava me preparando pra passar um ano lá realizando meu sonho de fazer intercâmbio e queria descobrir tudo sobre o país. Meu fichário no colégio estava todo pichado com a palavra CANADÁ e meu professor de física me deu um choque de verdade um dia pra ver se eu acordava pra vida. Quando eu já vivia no Canadá, e só tinha uma hora por semana para usar a Internet, este homem ainda assim me atazanava para conseguir a foto. Um dia, achei uma foto de uma menina com os peitos de fora e a cara cortada do quadro. Ela era morena que nem eu e então fiz charme durante dois dias para fingir que havia tirado uma foto mas não tinha coragem de enviar, e então enviei pra ele. Ele nunca mais falou comigo.

Lá no Canadá, eu descobri que, quando eu falava que preferia o frio ao calor, é porque eu não sabia o que exatamente era frio. Se há uma única coisa que eu queria ensinar aos outros depois das minhas andanças é que 15 graus é CALOR. E em algumas culturas, as amizades não superam a temperatura negativa. No meu segundo semestre como estudante do colegial canadense, fui abençoada com o status de única menina na aula de Educação Física. Além do colírio grátis três vezes por semana, eu ainda tinha o privilégio de correr menos e jogar futebol americano como café-com-leite. Meu amigo Danny, um menino magro e espichado que quase nunca falava, mas tinha uma simpatia tremenda, aprendeu rápido que, no Brasil, contato físico não era sinônimo de atração física. Todos os dias depois da aula ele deixava que eu lhe desse um grande abraço para esquentar um pouco o meu dia. O melhor amigo do Danny, o Tyler, começou a espalhar para todos que eu estava apaixonada pelo Danny. Gastei muita saliva tentando explicar para um irredutível Tyler que abraço é uma expressão de amizade. Até que me cansei. Quando chegou o verão, tivemos um torneio de golfe. Cheguei exausta ao salão para ver os resultados e sentei em uma cadeira no meio do recinto. Dez minutos depois chega o Tyler, também exausto. Me vê no meio do salão, caminha diretamente na minha direção e me dá o abraço mais inesquecível da minha vida.

Meu primeiro celular quem me deu foi meu primeiro namorado. Ele arranjou um usado do amigo dele e me deu porque não suportava não saber onde eu estava durante o dia. Nos primeiros seis meses de namoro não passávamos dois dias sem nos ver. Telefone diariamente. Comprei um carro. Ele ficou com ciúmes porque eu não precisaria mais das suas caronas para ir à faculdade. Quando fizemos três meses juntos, eu, que já sabia que queria estudar fora de novo, estava pensando em me inscrever para uma bolsa de estudos de um ano nos EUA, que começaria treze meses depois da inscrição. Ponderei ponderei e por fim decidi não optar por aquela bolsa porque o curso não era tão interessante, meu emprego não era tão ruim, ainda tinha prestações do carro para pagar e, vá lá, eu tinha um namorado gente fina que poderia durar. [acompanhe com atenção a próxima frase porque ela é tão absurda quanto verdadeira] Antes de tomar essa decisão, ele me disse que a psicóloga dele havia dito que aquele meu projeto de talvez viajar era a pior coisa que poderia acontecer para ele naquele momento. Quando eu anunciei que renunciaria à seleção para a tal da bolsa, só revelei pra ele os outros motivos, porque achei que ninguém gostaria de ser culpado por acabar com planos de alguém que sempre teve planos assim. Ele, é claro, ficou bravo por não ser citado como razão para que eu abdicasse do meu sonho. Dez meses depois, ou seja, três meses antes de data onde eu possivelmente poderia estar embarcando, eu me cansei do abuso psicológico e terminei com ele. Depois de sete meses fazendo tudo o que ele queria, decidi tentar conseguir algum espaço na nossa relação para coisas que eu queria fazer. Foi então que começamos a brigar. Ele se enfezava, virava as costas, batia a porta e sumia até o dia seguinte, quando tudo havia sido magicamente apagado pelo brilho do luar. Certa vez, me dei um ultimato e me proibi de aceitar tal comportamento. Que se repetiu, como aconteceria com qualquer pessoa acostumada a ter tudo o que quer. No dia seguinte, quem deu com a cara na porta foi ele, e foi nesse momento que eu descobri um significado para a palavra liberdade que nunca me haviam ensinado antes. Talvez tenha a ver com o que sentia Tiradentes ou os franceses que derrubaram a Bastilha nas aulas de História, mas não há texto que o Hobsbawn possa escrever que te esclareça tão bem quanto sentir o cheiro da liberdade no vento.