sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

todo dia no ônibus.


sempre naquela curva à direita, ela marcava com o dedo a página do livro e erguia a cabeça, olhando do seu lado direito e sentindo no rosto o vento quente. naquela descida o motorista pirava sempre e ia à toda. ela, sacolejando violentamente, imaginava à cada esquina um acidente, seu corpo sentindo o bruto impacto, a inconsciência, a morte não. dela, ele sentia um medo que não se diz. e depois sorria. sorria boba por ter aquela uma aventura. no fim da descida, depois da curva à esquerda, ela não voltava logo ao livro, e ia olhando as cenas nas ruas, pensando e sentindo tudo como estrangeira, como todo dia. num lance, virava-se prá dentro e sorria prá passageira ao lado. sem sorriso de volta, voltava ao livro.