terça-feira, 9 de março de 2010

Amor de radiador

Descobri hoje que a cor da pele e o roxo produzem um degradê fascinante nos nós dos meus dedos da mão. Basta que eu esqueça as luvas em casa.

Não, não foi assim que começou a história. Eu as deixei em casa propositalmente. Trata-se do par "oficial" de luvas de lã cinza, de mangas compridas que chegavam até o cotovelo e furos para que os dedos ficassem unidos*. Comprei-as ano passado e resolviam minha obsessão tola por blusas e jaquetas que não alcançavam meus pulsos.

Mas hoje decidi deixá-las em casa, e apenas cogitei levar o par de luvas do camelô**, mais fáceis de manusear.

Fui confiante na minha posição de veterana. Levava o segundo inverno na flauta, em comparação com o primeiro. Há poucos dias me dei conta de que já era março, estava na rua sem gorro e sem luvas e não tiritava.

Ignorei que isso havia sido há poucos dias, quando os graus Celsius estavam por aqui em dúzia, e hoje metade deles havia sido levado pelo vento para longe da Calle Barcelona, onde fui para tirar fotos da intervenção feminista da rua dos imigrantes. O segundo destino só se podia alcançar a pé. E só lá parei para ver as minhas mão. Os dedos, Roxo 5 graus. Contraste com o esmalte Vermelho 40 graus.

Claro que, como veterana, também havia abolido o combinando calça-dupla. Nada como meia hora no ponto de ônibus para que os joelhos comecem a dançar por conta própria.

O corpo agüentou como pôde. Cheguei em casa faminta e só mesmo o radiador para derreter o gelo do lado de fora. Pensei em várias metáforas para explicar o gelo do lado de dentro e criar um post digno desse blog. Mas do lado de dentro a temperatura está confortável, o clima está ameno, a vida vai bem.



*Aprendi no Canadá que o calor do próprio corpo é mais eficaz que o de membros envoltos só em lã, e por isso as luvas que deixam os dedos juntos esquentam mais.
**Aprendi no Canadá que lá elas são inúteis.