quinta-feira, 4 de março de 2010

É bom pra pele. Paga mal, mas pega bem

Eu tinha duas alternativas: me mandar ou fingir que não me importava. Só que a logística de ir embora trazia implicações práticas que estavam fora do meu alcance (largar o trabalho, mudar de casa...). Optei por fazer o simples.

Mas quem disse que seria simples? Quem disse que seria simples não escolher os números do seu celular gravados na memória do meu? Quem disse que seria simples escrever alguma coisa que não fosse um aviãozinho de papel atirado contra o seu coração? Sua cabeça, minha pista de pouso no ar.

Sim, não é tão palpável como trocar de endereço ou tentar a sorte como garçom em um pub londrino, mas mudar o que se sente de lugar também deixa suas tatuagens na casca dura - âncora enferrujada fincada em nuvens de faz de conta.

Quem disse que seria simples? Ao contrário, é como transportar cristais na corcova de um camelo embriagado. Alguma coisa sempre acaba quebrando. E depois de quebrado, não tem saliva, farinha ou Super Bonder que restaure o quadro todo.

Quem sabe, descalça e distraída, você ainda não corta o pé num desses cacos de tristeza que espalho pelo chão? Seu sangue azul pintaria avisos de contramão pela avenida. “Acidentes acontecem”, você dizia (ou imaginava?).

Quem disse que seria simples fingir cegueira diante de tubos de pasta de dente, cremes, xampus, lingeries, óculos escuros e páginas grifadas de um romance inacabado. Aliás, fui a única coisa que você começou e terminou, literalmente.

No meu lugar, você faria o quê? Fogueira com as tranqueiras românticas que empilhei na sua escrivaninha? Queimaria uma floresta inteira com meus poemas chulos e escreveria com fumaça preta um pedido de socorro? E quem te salvaria?

Os heróis estão de férias.

Quem disse que seria simples seguir em frente? Sou um coelho de quermesse trincando de desejo - e entrando na casa errada mais uma vez. A gente poderia simplesmente ficar parado, não podia?

E olha que eu sempre tive duas alternativas: me mandar ou fingir que não me importava.

Só que me mandar tinha lá os seus prazeres. A ilusão de começar de novo em outra praia, com outra identidade e um novo corte de cabelo. É... A ideia era boa, mas optei por fazer o simples. Ficar.

(Fake no Twitter; fake no Orkut; fake no Facebook; fake na frente do espelho do banheiro; fake no fake que carrego comigo nos dias úteis e feriados prolongados. Lembre-se de nunca mais acreditar em mim, tá?)

Quem disse que seria simples? Foi preciso inventar atividades lúdicas para não pensar na sua cara de desconforto ao me ver atravessar a rua. Talvez me quisesse atropelado, talvez me quisesse do outro lado do mundo. Me queria chinês, Inês?

Agora, quem disse que seria simples? Quem foi o filho do cão que, na boa intenção de consolar um amigo, emplacou essa cascata? Não, nunca seria simples.

Não com você. Não pra mim.

Quem disse que seria simples? Uma matemática para iniciantes, divisão de números pares, dois pra cada lado e pronto. Vou multiplicando sua conta, caderneta cheia de pendências. Saldos, dívidas e empréstimos. A única coisa simples é calcular quem saiu perdendo. Noves fora, sempre eu.

Portanto, não facilite as coisas pra mim. Não queria jogar o bote salva-vidas depois que a água já baixou. Não me ofereça nada que eu deseje muito, mantenha-me fora do seu esquadro - como num velho bolero, “risque meu nome do seu caderno”. Quem disse que seria simples? Sofra um pouquinho. Só um pouquinho. Humaniza. É bom pra pele. Paga mal, mas pega bem. Não pode ser sempre tão fácil, meu amor.