quarta-feira, 3 de março de 2010

Um filho

Eu sempre quis ter um filho, ou um punhado deles, e isso sempre me pareceu algo certo na vida. Quando minhas amigas falavam que não queriam, que não teriam por nada no mundo, eu achava que elas estavam blefando.
Já agora que estou mais velha as coisas não me parecem mais tão simples assim. Eu? Mãe? Eu mal sei passar uma roupa, meu café é doce demais e meu ovo frito sempre gruda no fundo da panela. Como vou cuidar de alguém?
Fora as probabilidades de tudo dar errado. Traço listas mentais de prós e contras. Bebês são bonitinho, mas e se o meu não for? E se e ele for esquisito? Tá, isso é superficial, eu sei. Mas e se ele for um drogado que vai vender toda a minha mobília em troca de pedras de crack? Um assassino, um serial killer, matando e esquartejando por ai. Culpariam quem? A natureza falha? A anatomia cerebral? A sociedade opressora? Não, eu seria a culpada. A mãe. Ausente, violenta, ou sei lá o que. Não importa se levava café da manhã na cama, se comprava brinquedos bacanas, o título mãe bastaria pra me transformar em culpada e ponto final.
E o problema é que eu não poderia simplesmente mandar ele voltar pro lugar de onde veio. E tirando filhos, o que mais na vida é pra sempre? Casamento não mais e tatuagem também não. Ok, ainda temos AIDS, herpes e outras doenças, mas essas coisas a gente não escolhe, então não vale.
Sim, ele pode ser um bebê amável, é verdade. Risonho, de bochechas rosadas, mas que foi parar no jornal nacional por ter sido abandonado no balcão de uma loja de departamento. Claro que é possível! Eu esqueço meu celular, minha chave, minha carteira,minha blusa, tudo, e se eu esquecer meu bebê? Já imaginou? Eu seria presa, abandono de incapaz. O delegado não acreditaria na minha justificativa. “Defict de atenção? O caramba! Joga essa ai na cela 12”. E lá estaria eu, separada das outras presas, jurada de morte,com um advogado indicado pelo estado, porque nenhum outro quis me defender.
Não, não é tão simples ter um filho.