sexta-feira, 28 de maio de 2010

Abstinência Virtual e Descoberta Pessoal

Já tem data: 05 de janeiro de 2011. Vou sair de São Paulo rumo a Gentio do Ouro, no interior do interior da Bahia, cidade onde há apenas um telefone. E ele é público. Serão 7 dias sem contato algum com internet, televisão ou qualquer tipo de distração midiática. Um desafio rumo à minha abstinência virtual e descoberta pessoal.

Tenho uma pequena história pra contar sobre o que me está me levando a viajar para aquele lugar:

- Meu avô, da parte mais brasileira da família, chamava-se Horbal. Registrou a si mesmo aos 12 anos de idade porque sua mão não achava necessário. Aos 19 anos, apaixonou-se por Januária, se casou e tiveram duas filhas. Ele gostaria de chamá-las de Agrícola e Pecuária, mas foi proibido pela mulher. Juntos, escolheram os nomes Benigna e Benília.

- Com o nascimento da segunda filha, Januária teve logo sintomas de eritroblastose fetal e precisava de uma vacina cara, vendida apenas em Salvador, ou morreria. Meu avô juntou as economias, vendeu algumas cabeças de gado e partiu correndo buscar a salvação de sua mulher. Comprou a vacina e logo retornou. Nessa época, as injeções eram feitas por tubos de vidro, mais simples. Na hora da aplicação, o médico deixou a seringa cair no chão e ela quebrou. Januária morreu.

- Com duas filhas pequenas, Horbal veio para São Paulo. Tornou-se militar e trabalhava enquanto a filha mais velha cuidava da mais nova. Em uma visita à Bahia, apaixonou-se por Eunice, que era irmã de Januária, e sua prima em segundo grau. Casaram-se e voltaram a São Paulo. Eunice é minha avó.

- Horbal e Eunice tiveram muitos filhos. Pela pobreza e falta de informação, alguns vieram a morrer. A primeira filha mulher de minha avó chamava-se Maria. Morreu com apenas 2 meses. Ela engravidou novamente e resolveu chamar a segunda filha de Maria novamente. O bebê morreu com apenas dois meses, mais uma vez. A próxima chamava-se Neide e correu tudo bem. Ao todo, tiveram 8 filhos, dos quais 3 morreram.

- Uma das maiores tristezas do meu avô era que nenhum de seus filhos e netos conheciam sua cidade nnatal, Gentio do Ouro. Lá, ainda mora a mãe de minha avó, minha bisavó, de 99 anos que cuida de sua tia-avó, de 101 anos. Em sua última viagem à Bahia, Horbal levou uma câmera para gravar todos os lugares que ele gostaria que sua família conhecesse. Não conseguiu terminar. Morreu uma semana antes de voltar á São Paulo.

- Quando meu avô faleceu, a cidade decretou um luto não-oficial. Moradores, amigos e parentes da cidade de 10.000 habitantes fizeram um pequeno cortejo, levando o caixão por alguns lugares da cidade. Usaram a câmera para filmar o velório e gravaram cenas adicionais de lugares que Horbal não teve tempo de registrar. Eu nunca tive coragem de assistir à essa fita.

- Um tio-avô fez um livro registro, mapeando toda a árvore genalógica da família entre casamentos, descasamentos, mudanças de cidade e desaparecimentos misteriosos. Seu último registrou foi o casamento do meu pai e o nascimento de seu filho, Felipe, que sou eu.

- Resolvi ir para a cidade de Gentio do Ouro para conhecer melhor minha bisavó e o lugar de onde tanta gente da minha família saiu. Em 5 de janeiro de 2011, minha bisavó Januária completa seus 102 anos. Ela já não enxerga mais e ouve muito pouco, mas conta suas histórias a quem quiser ouvir, sem saber com quem está falando. Eu estarei lá.

Gentio do Ouro era uma área rica em diamantes há décadas atrás. Hoje, não é mais. Como diria Fiona Apple, What’s so impressive about a diamond except the mining?”