segunda-feira, 22 de novembro de 2010

E agora, José?

Um dia, a festa acaba, a luz apaga, o povo some, a noite esfria. José sabe muito bem disso, mas está inerte numa situação delicada que não lhe permite impedir esses acontecimentos

José é uma boa pessoa, quem o conhece afirma com segurança que ele é decerto um dos companheiros mais divertidos. Quem o conhece, porém, também afirma com segurança que Clóvis, alter ego de José, é totalmente desestimulante. Há inúmeras diferenças entre um e outro e todos são capazes de reconhecê-las facilmente. Saber quando José é José e não Clóvis também é fácil – o motivo pela existência do outro eu de José é bem visível: o namoro.

José, um dia, se apaixonou e foi correspondido. Conforme o sentimento aumentava, envolveu-se num romance. Eis que Clóvis surgiu. Este veio para suprir a necessidade daquele de agradar em todos os aspectos a namorada. Se José é liberal, engraçado, confidente e próximo, Clóvis caminha no sentido oposto: ele é contido, sério, distante e intimidador. Quem vê José, rapidamente deseja lhe dar um abraço e conversar com ele sobre os acontecimentos da vida. Quem vê Clóvis logo deduz que não haverá espaço para uma boa conversa.


A namorada de José o adora – afinal, com ela, ele é ele mesmo e também o outro, fazendo-a, portanto, muito feliz. Os amigos de José, no entanto, não sabem como se portar diante disso. Ora o vêem como aquele que conheceram, três anos antes; ora o vêem como o homem sisudo que veio em decorrência de uma sutil incompatibilidade entre as personalidades de José e de sua namorada. Os eventos em conjunto tendem à tensão: nunca se sabe se quem vem é José ou se é Clóvis - ou ainda se José se tornará Clóvis ao longo da noite. Uns preferem a presença de Clóvis à ausência de José, outros preferem sua total ausência à possibilidade da vinda de Clóvis. Não há consenso, nem todos concordam com a alternância de personalidade e nem todos discordam dela.

A namorada de José, todos deduzem, garante a ele: você não ficará sem mulher, não ficará sem discurso, não ficará sem carinho. Os amigos, inseguros em relação ao que devem e ao que não devem falar, pensam: o dia não virá, o bonde não virá, o riso não virá e nem virá a utopia, e tudo acabará, tudo mofará. Receiam, contudo, esse pensamento e optam pelo otimismo – até porque, quando saem junto com Clóvis, notam que suas personalidades são intercambiáveis e às vezes percebem que estão a falar com José por alguns minutos, antes de ele voltar a ser Clóvis. Vale ressaltar que José convive bem com Clóvis. José é consciente da existência do seu alterego, parece não ligar em sê-lo às vezes, e, na maioria das vezes, opta por ser o outro a ser ele mesmo.

Ninguém diz, mas todo mundo pensa: um dia, José poderá acabar sozinho no escuro, tal qual bicho-do-mato. E querem todos que ele não se iluda com falsas liberdades, com palavras gentis que confundam o seu discernimento. Querem apenas que ele dose bem os seus momentos como José e seus momentos como o outro, a fim de que sua festa não acabe, a luz não apague, o povo não suma, sua noite não esfrie e, por fim, ele tenha que perguntar a si mesmo: e agora, José?.