quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Uma Odisseia em San Francisco

O meu primeiro destino era San Francisco, o segundo era Vancouver e o último, Seattle. Eu sabia mais do que ninguém que uma nova viagem para os Estados Unidos não seria agendada tão cedo. Canadá então, nem se fala. Muito provavelmente só pisaria novamente em solo canadense numa próxima vida, ao reencarnar um pássaro viajante japonês, daqueles que voa sem moderação pelo hemisfério norte. Sendo assim, precisava aproveitar ao máximo os cinco preciosos dias em San Francisco, as três miraculosas noites em Vancouver e os dois promissores e gélidos crepúsculos em Seattle.

Cheguei em San Francisco no dia 10 de novembro de 2010. Me hospedei na casa de uma amiga dos tempos de colégio que dividia o apartamento com um amigo coreano. Já o tinha visto no Brasil umas duas ou três vezes. Depois daquele papo básico inicial do tipo “tudo bem, cara?”, “como foi de viagem?”, “que bom te ver por aqui”, ele emendou com uma pergunta totalmente inesperada. Imagine o show da sua banda preferida. Seria o equivalente aos caras tocarem aquela música que você tanto gosta, mas nunca é executada ao vivo.

- Quer jogar futebol hoje?

Quando eu disse sim, a minha amiga me olhou incrédula. Ela já sabia que ele me faria o convite, mas achava que eu ia recusar. Ela pensou que eu ia dizer que estava cansado da viagem, como se macaco recusasse banana. Eu poderia estar dez noites sem dormir que eu não desperdiçaria aquela oportunidade. Ainda mais em solo estrangeiro, numa semifinal de um campeonato amador, podendo jogar a final no mesmo dia e sair de lá “campeão”.

- Só tem um problema – eu disse. – Eu não tenho chuteira e nem short.

Eu fiz aquele comentário já cogitando a possibilidade de comprar uma chuteira nova no mesmo dia(estava mesmo precisando de uma e ainda estou!), caso ele dissesse que não poderia me ajudar.

- Não se preocupe quanto a isso. Eu arrumo pra você. O único problema é a sua legalização na partida. Talvez o juiz não deixe você jogar porque você não está inscrito no torneio. Mas a partida é só às nove da noite. Eu dou um jeito até lá.

Então eu saí para passear pela cidade com a minha amiga. Só voltamos à noite. Tudo certo. Vesti o short, o meião, coloquei o meu sapatênis e fomos – a chuteira seria entregue por outro jogador na hora do jogo.

Tratava-se de um enorme complexo futebolístico de grama sintética com dezenas de partidas sendo disputadas ao mesmo tempo. O número de mulheres no complexo excedia o número de homens, o que não era uma grande surpresa, estávamos nos Estados Unidos. No “nosso campo” rolava a outra semifinal do torneio. Felizmente o melhor time desse confronto perdeu nos pênaltis. Aos poucos, os jogadores do nosso time foram chegando, os do outro time também. E não era só isso. O outro time tinha uma torcida muito animada com diversos cartazes, composta por oito ou dez indivíduos, na sua maioria fêmeas. Os cartazes eram extremamente mal feitos. Só no fim da partida, quando cheguei muito perto, eu consegui ler o que estava escrito.

O nosso time tinha três reservas: eu e mais dois. Mas eles explicaram que o time deveria fazer um rodízio a cada cinco minutos. Quem estivesse cansado deveria dar lugar a outro. Se não me engano, cada tempo tinha 25 minutos.

O juiz apitou o início do jogo e para o meu espanto, eu era um dos titulares. Não fazia sentido algum. Eu não conhecia ninguém e nunca tinham me visto jogar antes. Será que o capitão do time apostou em mim só porque eu era brasileiro?

Pouco importa. Comecei correndo que nem um louco e fui para o ataque. Porém, um cara do time baixou a minha bola. Disse que eu deveria fazer a lateral esquerda, ou seja, jogar mais recuado. Se não bastasse isso, o juiz chegou bem perto de mim e disse que eu não poderia jogar sem alguma coisa que eu não estava entendendo. A primeira coisa que eu pensei foi no tal problema de legalização que o coreano havia me explicado mais cedo. Mas não era nada disso. Um jogador do meu time me mostrou o que eu precisava pra jogar: caneleiras. Sem caneleiras eu teria de ficar do lado de fora, morrendo de frio e de ódio.

Saí correndo feito um louco novamente, mas dessa vez em direção às mochilas que estavam atrás do gol, ao lado da torcidinha de merda do time deles. Abri umas três mochilas até encontrar o que eu precisava. Não sabia de quem eram aquelas mochilas. Não foi um ato muito ético da minha parte, mas depois do jogo eu devolveria. Poderia ser uma mochila de alguém do outro time, ou até de alguém que tinha jogado a outra semifinal. A única coisa importante naquele momento era poder jogar futebol.

Fim do primeiro tempo. 0 x 0. Joguei muito mal. Estava puto com a minha atuação. Mas eu já tinha um plano para o segundo tempo. Começaria na reserva e só entraria quando alguém do ataque saísse. E jogaria até o fim do jogo, ou caso alguém me tirasse na base da força.

O pessoal do banco de reservas foi entrando e quando chegou a minha vez de entrar, quem saiu foi um cara do meio campo. Cedi a minha vez. Depois saiu um zagueiro e também cedi a minha vez. Até que finalmente um dos atacantes foi pro banco.

Eram 7 jogadores na linha e um no gol. O outro time tinha muito mais volume de jogo, muito mais posse de bola. O nosso time jogava no contra-ataque. E era justamente por isso que eu fazia questão de ir pro ataque. Sabia que podia levar a zaga do time adversário na minha velocidade.

Logo no meu primeiro lance, quase marco um golaço. Recebo a bola na direita. Puxo a bola pro meio, carregando com a esquerda, que é a perna boa, a marcação se atrapalha, continuo carregando pelo meio e fico cara a cara com o goleiro. Era só bater colocado no canto e correr pro abraço, mas o chute saiu fraco, no meio do gol.

Continuei fazendo boas jogadas até que em mais um contra-ataque do nosso time, um cara foi até a linha de fundo e lançou pra mim no meio da área. Só tive o trabalho de empurrar a bola pra dentro do gol. 1 x 0. O jogo já estava acabando. Era só segurar a vitória. Em mais um contra-ataque, fiz bela jogada pelo lado direito e deixei o cara que tinha me dado a assistência pro gol, cara a cara com o goleiro. Estava retribuindo a gentileza. Era só marcar e carimbar o passaporte para a final. Ele também chutou em cima do goleiro e no último minuto, o time deles empata com um gol bastante semelhante ao nosso que levou a torcidinha de merda à loucura.

Prorrogação. 5 minutos cada tempo. Se continuasse empate, pênaltis. E no último minuto do segundo tempo da prorrogação os caras marcaram mais um gol e viraram a partida. Eu, o coreano e a minha amiga de infância ficamos arrasados com aquela virada inesperada. Ainda mais depois ter o jogo na mão. Mas ainda assim, valeu muito pela experiência única de ter jogado um torneio de futebol amador em San Francisco.

Eu achava que seria o evento mais inusitado daquela viagem, mas definitvamente não foi. Na quarta-feira seguinte, em Seattle, aconteceu talvez a aventura mais incrível de toda a minha vida. Não só pelo o que aconteceu em si, mas por toda a história, tudo que desencadeou o episódio. Então não perca, dia 17 de dezembro, “Uma Odisseia em Seattle”. Será postado no meu blog pessoal: http://paulopilha.wordpress.com/