sexta-feira, 22 de abril de 2011

No meio do caminho tinha uma vaca.

O tema que eu escolhi hoje parece meio incomum, mas é algo sobre o que eu venho pensando ultimamente. Primeiro, explicarei de onde veio a ideia, depois divagarei sobre isso. Devo dizer que os bovinos fazem parte do meu cotidiano - ainda que eu não more numa área rural nem tenha sítio da família. Mas eles, os bois e vacas, estão lá, num pasto imenso, ao lado da rodovia, todos os dias, e, quando vou pra universidade, eu sempre os vejo, ruminando tranquilamente, e me observando com olhos intensos e ao mesmo tempo plácidos.

Imagem escolhida pela minha colega Jacqueline, que, segundo ela mesma, possui um penteado semelhante ao desse bovino.

Acho curioso notar o modo como os bovinos de portam. Há neles uma graça e sutileza muito grandes, que me comovem - sempre quero acariciá-los quando estou passando e vejo, a menos de três metros de mim, uma vaca comendo e vagando o olhar pelo horizonte. Aí me pergunto: será que ela vê a mesma coisa que eu? Fico pensando nisso, às vezes. Fico pensando se ela, se fosse racional (e talvez seja!), acha incômodo passar o dia todo ali, naquele pasto, vendo as mesmas imagens, numa sucessão inerte de estudantes, carros e calor. Sim, os bovinos ficam no calor, movimentando-se serenamente, como se ignorassem o horrível calor que faz nessa cidade onde moro. Aí, penso outra coisa: como manter essa serenidade diante de tamanha adversidade?

Observar o comportamento bovino me faz reavaliar a minha vida. Estivesse eu tão brando em relação aos problemas, decerto seria mais feliz, pois - como o boi à beira da estrada, que observa tão perto o mormaço -, apenas me focaria naquilo que me faz bem. Penso também que, fosse eu assim, seria alienado. O boi, complacente, me observa tolerante, mas será que se pergunta quanto mal eu lhe posso fazer? Será que se pergunta o porquê de, todos os dias, estar, às oito horas da manhã, próximo à rodovia, e, às cinco da tarde, próximo aos eucaliptos, na entrada da universidade? Tudo me parece muito condicionado, pouco produtivo, pouco questionador. Aí me lembro que estou abordando a vida bovina e me lembro que não preciso ser tão crítico.

Enquanto escrevia isso, pensei num outro fator: o preconceito. Aqui cabe apresentar o paradoxo das consequência de ser ou não ser um bovino. Quem tem vinte cães em sua propriedade, nomeia-os todos, tendo às vezes dificuldades em se lembrar de seus nomes. Quem, no entanto, possui gado, simplesmente deixa os animais, sem criar grandes vínculos, sem se dar o trabalho de dar-lhes nomes. Eu honestamente acho isso um absurdo, pois tenho tanta vontade de abraçar um cão como tenho vontade de abraçar a uma vaca; logo não vejo porque diferi-los assim, nomeando a um e não ao outro.

Enfim, vou encerrar esse texto, não há mais o que dizer. Só quero dizer que defendo os bovinos, porque eu os acho simpáticos, principalmente quando eles me encaram, como se quisessem que eu me aproximasse, como se quisessem saber mais sobre mim, como se, a eles, a minha vida importasse e eu não fosse só mais um dos muitos que caminham por ali todos os dias. E também quero dizer que defendo os outros animais, defendo todos aqueles que me causam vontade de abraçar (como ursos, leões-marinhos e girafas) e aqueles que eu não abraçaria, mas que sou capaz de reconhecer sua importância no ecossistema. No entanto, quero expressar a minha insatisfação em relação às pombas, nome genérico que, com exceção do tucano e da borboleta, atribuo a todos os animais que voam.