quinta-feira, 26 de maio de 2011

literatura: o espaço do desejo





na minha primeira postagem no blog, e sendo  professora de literatura, o mais óbvio é que eu escrevesse sobre o assunto. mas existem tantas maneiras de abordagem sobre a tal literatura que me sinto, de repente, constrangida. primeiro, porque não sou crítica literária, embora na minha profissão uma das funções seja analisar. segundo, porque tenho cá pra mim que uma certa “linguagem” se sobressai neste canto de 30 pessoas, e não é a linguagem da crítica, tão afeita a assertivas.


gosto da ideia de vizinhanças que o formato do blog deixa transparecer. o que aqui se escreve avizinha-se a muitos gêneros. roça várias “linguagens” sem jamais de fato almejar ser nenhuma delas. e se agora falo em linguagens, entre aspas, é porque recentemente reli um dos livros de Roland Barthes. os leitores daqui não sabem, mas Barthes é, em falta de palavra melhor, minha grande paixão da escrita. paixão por aquele que marcou a indissociabilidade entre literatura, escritura, texto.

boa parte das pessoas, quando pensa em  Paris, relaciona-a aos seus inúmeros cartões postais, todos tão imaculados quanto de fato o são. quase todos querem uma foto embaixo da torre Eiffel, embora raramente se consiga uma foto de “cartão postal”. isso parece não ter importância. o que vale é o imaginário. eu, não. quando pensava em Paris, imaginava-me andando pelos corredores do Collège de France, onde Barthes dava aula nos seus últimos anos de vida. tenho fotos embaixo da torre eiffel. e nenhuma nos corredores do colégio. lá, bastou-me a emoção. um outro imaginário, c’est vrai.

eu gosto de pensar que esse imaginário é de outra ordem, pois ele é forjado no mundo da escrita. ainda ontem, no meu blog, eu falava que tem horas que a literatura pede só uma declaração de amor. ainda mais nestes tempos em que qualquer amor parece sem sentido. e minha amiga completou que às vezes mais vale um punctum, uma olhadela, uma miopia. então, se há o que falar sobre literatura, num espaço tão bonito e diverso como este, é preciso colocá-la no lugar do desejo. reafirmar quantas vezes for preciso que à literatura nos cabe entregar. vivenciá-la, sentir seu cheiro, seja fezes, seja flores. e vivenciar é isto: fazer valer o desejo. buscar o impossível porque as palavras existem. e por que existem, desejamos. um círculo bem círculo.  

mas este assunto pode se estender na outra postagem, no próximo dia 26. até lá, então.
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