sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O tempero da ousadia

Como disse no post anterior, estou vivendo na Argentina. A sensação de estar aqui e ver sua vida brasileira passar diante dos seus olhos e não poder mover uma pata para interferir no resultado, é uma mescla de impotência e redenção. Impotência por ter suas escolhas out desse mundo que anteriormente era cheio dos seus dedos, e redenção por não ter que se preocupar com possíveis desgastes daquela rotina efusiva. E esses dois opostos estão diariamente fazendo parte de tudo o que vivo por aqui.

Sinto-me impotente por não falar esse espanhol perfeitamente, não podendo muitas vezes mostrar meu eu. E a redenção vem justamente nessa parte, de não mostrar meu eu, de não me preocupar com o que pensam, de ser uma pessoa que pode fazer oitocentas cagadas e ir embora em alguns meses sem me preocupar em ser ou não aceita por essa sociedade louca.

Gosto daqui. Gosto das músicas, das roupas, dos hábitos, das frutas, do clima (mas não gosto da comida e nem do estilo dos cabelos por nada). Gosto da liberdade que construí aqui. Uma coisa plena, sem amarras e sem medo.

As pessoas são bem caretas, verdade. E isso pra mim soa como um desafio: o de parecer cada vez mais diferente para elas. E tirar delas o preconceito social asqueroso que carregam. E assumir coisas loucas que eu jamais assumiria para qualquer um que eu conhecesse no Brasil. Por exemplo, ‘Oi! Eu já fiz sexo no pasto e acordei ao lado de uma vaca!’. Eles fazem uma cara de ‘que menina louca dos infernos!’. E ao mesmo tempo eu trato de conquista-los de outras formas, sendo divertida e amiga. (LEMBRANDO QUE ISSO É UM EXEMPLO, OKAY MÃE?).

E as vezes, não sei, mas sinto bem falta dessa ousadia minha. Na verdade, descobri que tenho essa ousadia morando aqui, e tenho medo de perde-la quando voltar. Não que eu tenha que sair por aí contando minha vida íntima e pessoal para qualquer indivíduo careta na rua, mas sim de não ter medo de assumir o que sou, as minhas vontades e as minhas manias. Passei anos, e confesso que ainda passo, influenciada por minha passividade lasciva e repugnante. Odeio ser assim, odeio! Odeio ter medo de me expor e poder incomodar os outros. Odeio ter esse pavor que cobrar dinheiro, de ter que falar pra alguém que ela está me irritando, que mandar alguém calar a boca, ou de falar que não como carne quando meus amigos estão escolhendo uma pizza. E ao mesmo tempo, eu ODEIO ser tola assim e me esconder o tempo todo.

Mas, se pensar bem, do mesmo jeito que eu não me incomodo da pessoa me pedir um gole de coca-cola, ela não vai se incomodar se eu pedir igual. E é bem isso que estou aprendendo aqui. Aprendendo a pedir ajuda para não me perder na rua, aprendendo a pedir o celular emprestado quando quero pedir empanadas, aprendendo a falar não quando eu quero falar não. E perceber, claro, que as pessoas não se incomodam com a sinceridade, e sim com a falta dela.

A insegurança está ligada à expectativa da resposta alheia. Assumir a responsabilidade de uma simples pergunta é perigoso para quem é sensível à opinião alheia. Enquanto se está na zona de conforto na normalidade, seguindo o beabá do que você deveria fazer como um exímio cidadão, ninguém te olha torto. Afinal, você ‘parece’ normal. Mas ao sair dessa estrada principal e começar a trilhar novos caminhos, os olhos ao redor começam a se arregalar para ver onde você está indo. O problema desse olhar é identificar os dois lados: em que ponto ele não se importa com seu rumo e em que outro ponto ele se importa tanto que tem medo que você o leve junto. Nas vezes que ele não se importa, como o gole de coca-cola, abstraia e viva sem neuras. E nas outras vezes, tente leva-lo junto. Quem sabe bem aí você não encontra seu parceiro para ousar.

Temperando a vida.



Foto por: Monica Rodriguez