Sinto-me impotente por não falar esse espanhol perfeitamente, não podendo muitas vezes mostrar meu eu. E a redenção vem justamente nessa parte, de não mostrar meu eu, de não me preocupar com o que pensam, de ser uma pessoa que pode fazer oitocentas cagadas e ir embora em alguns meses sem me preocupar em ser ou não aceita por essa sociedade louca.
As pessoas são bem caretas, verdade. E isso pra mim soa como um desafio: o de parecer cada vez mais diferente para elas. E tirar delas o preconceito social asqueroso que carregam. E assumir coisas loucas que eu jamais assumiria para qualquer um que eu conhecesse no Brasil. Por exemplo, ‘Oi! Eu já fiz sexo no pasto e acordei ao lado de uma vaca!’. Eles fazem uma cara de ‘que menina louca dos infernos!’. E ao mesmo tempo eu trato de conquista-los de outras formas, sendo divertida e amiga. (LEMBRANDO QUE ISSO É UM EXEMPLO, OKAY MÃE?).
E as vezes, não sei, mas sinto bem falta dessa ousadia minha. Na verdade, descobri que tenho essa ousadia morando aqui, e tenho medo de perde-la quando voltar. Não que eu tenha que sair por aí contando minha vida íntima e pessoal para qualquer indivíduo careta na rua, mas sim de não ter medo de assumir o que sou, as minhas vontades e as minhas manias. Passei anos, e confesso que ainda passo, influenciada por minha passividade lasciva e repugnante. Odeio ser assim, odeio! Odeio ter medo de me expor e poder incomodar os outros. Odeio ter esse pavor que cobrar dinheiro, de ter que falar pra alguém que ela está me irritando, que mandar alguém calar a boca, ou de falar que não como carne quando meus amigos estão escolhendo uma pizza. E ao mesmo tempo, eu ODEIO ser tola assim e me esconder o tempo todo.
Mas, se pensar bem, do mesmo jeito que eu não me incomodo da pessoa me pedir um gole de coca-cola, ela não vai se incomodar se eu pedir igual. E é bem isso que estou aprendendo aqui. Aprendendo a pedir ajuda para não me perder na rua, aprendendo a pedir o celular emprestado quando quero pedir empanadas, aprendendo a falar não quando eu quero falar não. E perceber, claro, que as pessoas não se incomodam com a sinceridade, e sim com a falta dela.
A insegurança está ligada à expectativa da resposta alheia. Assumir a responsabilidade de uma simples pergunta é perigoso para quem é sensível à opinião alheia. Enquanto se está na zona de conforto na normalidade, seguindo o beabá do que você deveria fazer como um exímio cidadão, ninguém te olha torto. Afinal, você ‘parece’ normal. Mas ao sair dessa estrada principal e começar a trilhar novos caminhos, os olhos ao redor começam a se arregalar para ver onde você está indo. O problema desse olhar é identificar os dois lados: em que ponto ele não se importa com seu rumo e em que outro ponto ele se importa tanto que tem medo que você o leve junto. Nas vezes que ele não se importa, como o gole de coca-cola, abstraia e viva sem neuras. E nas outras vezes, tente leva-lo junto. Quem sabe bem aí você não encontra seu parceiro para ousar.
Temperando a vida.