sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

I would prefer not to

Herman Melville (1819-1891), o famoso autor de Moby Dick (sim, a história da monstruosa baleia branca), tem um conto chamado Bartleby, o escriturário, escrito em 1853. O narrador é um velho advogado que, diante da grande demanda de trabalho em seu escritório, resolve contratar mais um funcionário para lhe ajudar. O escriturário contratado é Bartleby, um sujeito estranho, palidamente limpo, tristemente respeitável, incuravelmente pobre. O novo empregado, para a satisfação do patrão, realizava uma quantidade extraordinária de trabalho, sempre muito eficiente e faminto por algo que copiar. Isso inicialmente... Até que um dia, Bartleby passa a responder “I would prefer not to” a todas as solicitações que lhe fazem. Absorto, o escriturário recusa-se a escrever e a fazer qualquer outra coisa, ficando todo o tempo diante da janela contemplando o vazio. Daí em diante, trava-se um embate entre a consternação piedosa do patrão e a apatia insolente do empregado, que de tanto “preferir não” acaba preso. (Neste ponto, poupo-lhes os detalhes, afinal, a leitura do conto é absolutamente aprazível.)

A meu ver, o “prefiro não” de Bartleby não é um indício de procrastinação, pois não se trata de deixar tudo para fazer depois, como os preguiçosos usualmente fazem. Não, não é. Sua recusa é antes fruto de uma profunda desesperança com as atividades e os sentimentos humanos, com essa vida que quase sempre é terrivelmente copiosa: falar, comer, evacuar, amar, escrever, eventualmente trepar e finalmente morrer, falar, comer, evacuar, amar, escrever, eventualmente trepar e finalmente morrer, falar, comer, evacuar, amar, escrever, eventualmente trepar e finalmente morrer...


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Guardadas as devidas proporções, sou bem Bartleby. Esse aspecto da minha personalidade ficou mais evidente de uns tempos para cá, quando passei a “preferir não” para quase tudo. Vai fazer pós-graduação? Prefiro não. Vai dar aula? Prefiro não. Vai fazer o quê? Prefiro não saber. Sendo assim, não por acaso tornei-me uma espécie de escriturária do século XXI, realizando burocracias de pequena e média complexidade envolvendo números com quatro dígitos depois da vírgula. 

Admito que quando os dois escriturários que trabalham comigo – que são também autores deste blog – convidaram-me para ser uma das trinta pessoas, quase respondi, tal como Bartleby, “I would prefer not to”; afinal, o que eu posso escrever que já não foi mais ou menos dito aqui? Não seria, no final das contas, mais um ctrl+c ctrl+v das ideias que navegam pelos mares deste www? Enfim, se o leitor preferiu ler este texto até aqui, já desconfia da minha decisão. Diante do convite para escrever no Blog das 30 pessoas, não sei por que, eu preferi não falar não. Agora resta a esperança de que todo dia 27 o Bartleby que reina em mim me deixe escrever alguma coisa. Mesmo que seja uma cópia de algo que já foi escrito. E quase sempre será.